>> Você pode me ver? << (Pg-12)

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Mensagem por Convidad em Sex Mar 23, 2012 11:00 am


    Spoiler:
    A fic conta o que houve em um dos encontros de Icaru e Yumi e foi autorizada pela offa de ambos. Não contém nenhum conteúdo impróprio mas coloquei a classificação apenas para dar um parâmetro. Espero que gostem do encontro dos dois e que não deixem de ouvir a trilha sonora para acompanhar.

    Icaru está confuso sobre Marina, ele nunca conseguiu entender a diferença entre o sentimento e desejo e as perguntas que Yumi Campbell faz avabam irritando-o, principalmente quando a garota insiste que Icaru e Marina devem ficar juntos. Ele não percebe porque simplesmente não se deixa levar e não se entrega para uma paixão mesmo que passageiro porque o que mais quer é que Yumi o veja, não como o ex-namorado da colega de colégio, mas de um modo que só apenas ela podera dizer que o vê.

    Trilha:


    O moletom cinza refletia os raios alaranjados do por do sol enquanto Icaru corria em volta do lago, o vento frio não lhe incomodava, sua pele sequer sentia a sensação gelada que desvia das montanhas e pairava pelas águas cristalinas do lugar. Ele não sabia exatamente porque estava fazendo aquilo, mas era uma forma de colocar suas ideias no lugar, de colocar um pouco de toda a energia que sentia em alguma coisa.

    A princípio ele não estava interessado na maioria das atividades da escola, afinal ele não era um humano, não havia porque passar por aquele tipo de coisa, mas aos poucos as coisas mudaram. O time de basquete despertara sua atenção de forma natural, sua habilidade com a bola e a cesta surpreendeu-o e agora ele fazia parte da equipe.

    Fazer parte de uma equipe, aquilo era algo que surpreendia de uma forma que ele não seria capaz de explicar para alguém, ou melhor, que ninguém entenderia afinal.

    Ele ergueu a cabeça, os raios banhando seu rosto, deixando sua pele alaranjada enquanto ele sorria. Há quanto tempo ele estava correndo ali? Ele retirou o capuz, seus cabelos ruivos caindo sobre os olhos verdes, fazendo-o semicerrá-los enquanto movia a cabeça para o lado para afastá-los.

    Seus olhos se fixaram em uma das mesas que ficavam dispostas à beira do lago, os longos bancos de madeira convidavam para pic nics, reuniões, mas isso não chamou a atenção dele.

    Aquela hora a maioria dos alunos já estariam recolhidos, mas havia alguém sentando em uma das mesas e assim que reconheceu quem era Icaru sorriu. Ela estava retribuindo o favor que ele lhe fizera ao visitá-la em seu treino no tatame e agora estava ali esperando por ele?

    Ele continuou sua corrida, subindo um pequeno morrinhoa té alcançar a mesa onde a garota estava. Ela usava uma jaqueta jeans surrada sobre uma regata verde oliva e shorts pretos, trazia sua espada de kendo e estava com os cabelos presos, provavelmente ela havia acabado de deixar o treino. Ao lado dela um saco pardo deixava escapar um cheiro muito apetitoso.

    - Oi... - ele escalou o banco e sentou-se ao lado dela na mesa, Yumi afastando-se de lado e o olhando, sorrindo com o cumprimento.

    - Oi... - ela respondeu num tom baixo e ele reparou que o rosto dela ainda estava corado, é, talvez ele estivesse certo e ela tivesse saído do treino a pouco tempo. Ele desviou o olhar para o saco, reconehcendo a logomarca de um restaurante de fast food. Ele sentiu seu estômago roncar, aquilo era tão humano afinal.

    Yumi tirou um dos copos vermelhos de refrigerante e colocou diante dele, espetando o canudo amarelado e esperando que ele apanhasse. A bebida estava doce e gelada, o que era muito bom depois de uma corrida.

    - Achei que havia um trato sobre não mimar um ao outro - ele disse, encostando o canudo na boca e tomando um gole enquanto a olhava - Ou então algo me diz que o gosto doce dessa bebida vai ter um preço um pouco amargo - ele sorriu, sabia que ela nunca lhe pediria nada demais. Amigos, ela havia se tornado sua melhor amiga naquele um mês.

    - Eu só achei que seria justo - ela respondeu, dando de ombros enquanto apanhava o outro copo e fazia o mesmo com o canudo, tomando um longo gole da bebida - Me disseram que você foi muito bem no treino de hoje, então achei que o novo capitão merecesse - ela ergueu o copo como se brindasse e Icaru coçou a cabeça, encolhendo como se ficasse pouco a vontade com aquele título, mas sorriu.

    Ele estava com os dois pés sobre a mesa, ao contrário dela que mantinha os pés sobre os bancos. Ele deixou o refrigerante de lado e estendeu a mão, pedindo o pacote de lanches.

    - As notícias correm rápido demais aqui, eu havia me esquecido disso - ele respondeu um tanto sério - Mas eu vou aceitar sua comemoração... - ele disse, apanhando os aco que ela lhe jogou no ar e abrindo. Um sanduíche com bacon e queijo, era tudo o que ele poderia desejar e desejava naquele momento. Havia outro sanduíche, provavelmente o dela. Ele retirou os dois dali de dentro e então estendeu para ela o outro embrulho, um sanduíche de frango e salada.

    - Se não aceitasse eu faria você engolir ele de qualquer forma - ela apanhou o sanduíche da mão de Icaru e então passou a desembrulhá-lo, olhando para o pão em sua mão - Na verdade as notícias não correm tão rápido assim, foi só alguém que me disse, alguém que estava feliz por você - ela completou num tom baixo, levando então o lanche à boca.

    Icaru mordeu seu próprio lanche, ele sabia quem seria o tal alguém a quem Yumi se referia, era alguém que ele estava tentando evitar em pensar, tentando evitar em encontrar, mas era impossível afinal. Ela estava no treino, estava em todos os treinos para dizer a verdade e por algum motivo ele torcia que o motivo para a assiduídade dela fosse outro que não ele.

    - Eu também estava no treino de hoje, um pouco, no começo na verdade - Yumi continuou ao notar que ele nada dizia. Ela o olhou de lado, sabia bem qual era a expressão que Icaru fazia quando ela começava a falar sobre aquele assunto.

    Ele deixou seu olhar vagar pelo horizonte onde os raios laranjas começavam a ser substituídos pelos raios arroxeados do anoitecer.

    - O que mais ela disse? - Icaru interrompeu Yumi, colocando seu lanche sobre o embrulho, observando a caçadora morder o lábio enquanto tornava a olhar seu próprio lanche, como se ele fosse capaz de lhe dizer o que exatamente ela tinha que dizer para Icaru. O que ela tinha que dizer para que ele simplesmente não virasse às costas entendendo tudo errado.

    - Não conversamos muito, eu queria sair para comprar os lanches. Ela disse que está orgulhosa de você, mesmo que isso não import... - ele se calou ao ouví-lo bufar e ele saltou da mesa, levantando-se e andando de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos.

    Sua mente tinha claro a imagem da outra garota, os longos cabelos caindo sobre as costas dela, o sorriso que sempre se mostrava gentil para ele. Ela não podia entender? Eles cometeram um erro.

    Aquela noite no quarto dele não ia se repetir, o beijo, as discussões. Tudo aquilo deixava claro que havia algumas coisas que não tinham porque ser e mesmo que algo dentro dele queimasse quando ele lembrava daquilo ele sabia que era mero desejo. O que Marina idealizava nele só existia na mente dela, ele era confuso, ele não era nenhum herói, ele era apenas alguém perdido, um otário perdido em seus próprios erros. O filho de seu próprio fracasso, cheio de buracos em sua própria personalidade, tornando-o tão inconstante ao ponto de beijá-la e depois desejar esquecê-la.

    Ele parou diante de Yumi e olhou para ela. Ela também não tinha culpa, mas ele sempre ficava tão irritado quando ela começava a falar daquele modo, quando ela tentava fazer com que ele aceitasse o fato de que Marina estava apaixonada. Ele não sabia explicar o porque, mas se qualquer outra pessoa dissesse aquele tipo de coisa tudo seria diferente, ele saberia o que responder, mas quando era Yumi ele simplesmente saia do sério.

    - Eu já falei com você sobre isso Yumi, você já... viu como isso funciona... - ele parou diante dela, apoiando as mãos sobre a mesa, uma de cada lado dela, olhando então nos olhos da garota - Pare de tentar mudar isso, eu não vou voltar com ela - ele se afastou, sentando então no banco ao lado dos pés dela e apoiando às costas na mesa, deixando sua cabeça pender para trás, olhando o céu, olhando as nuvens sobre as copas quase negras das árvores - Por que você quer tanto isso? - ele perguntou de repente, se virando para ela.

    Yumi arregalou os olhos por um momento, encarando-o sem saber o que realmente responder, porque ela realmente não entendia o porque de querer ver Icaru com outra garota. No fundo ela apenas não queria admitir que aquela seria a maneira mais fácil para que ela não se sentisse tentada e desejar que ele olhasse para ela.
    Ela desviou o olhar, ajeitando-se melhor sobre a mesa, colocando um dos pés sobre o tampo de madeira e mordendo seu sanduíche, fazendo qualquer coisa para adiar a resposta que Icaru queria ouviur, porque aquela não era a resposta que ela queria dar.

    - Vocês são bonitinhos juntos - ela limitou-se a dizer e Icaru riu, seu riso saindo cheio de cinismo enquanto ele se levantava e sentava-se na mesa dessa vez.
    Ele inclinou o corpo para frente e apoiou os cotovelos no joelhos, olhando para frente enquanto abria e fechava a boca algumas vezes, as palavars dançando em seus lábios, mas ele desistia e acabava negando com a cabeça.

    - Se for assim então eu talvez deva ficar com você - ele se virou para ela, ela certament se magoaria com ele, asm ele estava irritado e não cnseguia pensar em alguma coisa gentil a dizer e ele não queria mais ouvir aquele tipo de insinuação - Você combina comigo em muitos sentidos então talvez a gente simplesmente devesse levar isso em conta e nos beijar agora - ele ergueu a mãoa té o rosto dela, segurando seu queixo e se aproximando.

    A frase fizera uma onda de choque correr pelo corpo da garota e ela só se deu conta da proximidade de Icaru quando o nariz dele estava quase tocando o dela. Como se ele lhe desse um choque ela acertou-se um tapa na mão, se afastando dele com uma expressão zangada. Por que ele estava agindo daquele modo?

    Ele afastou a mão, abaixando a cabeça enquanto Yumi permanecia calada, o coração batendo rápido demais, seus dedos afundando no pão macia, fazendo o molho manchar a embalagem do sanduíche. Sim, fora bastante estúpido o que ela havia dito, mas ele não precisava agir daquela forma, como se ela simplesmente nunca fosse rejeitá-lo. Ela rejeitaria ele, ela tinah que rejeitar ou ele não estaria mais ali.

    - Você é tão estúpido! - ela exclamou e dessa vez foi ela quem levantou da mesa, as mangas da jaqueta jeans cobriam suas mãos e ela as apertava com força, sua bota agora chutava e torturava a grama da beira do lago - Isso não tem a ver comigo, eu não estou apaixonada! - ela disse, fechando os olhos por um minuto e colocando as mãos sobr as têmporas, as apertando enquanto tentava se acalmar e não dizer algo do que fosse se arrepender depois.

    Ela não estava apaixonada, ela só havia amado um cara em toda a sua vida e era nele que seus pensamentos se forçavam em encontrar um ponto. O desprezo do outro garoto era a melhor forma de colocar todos os garotos como desprezíveis, achar que Icaru ficaria com Marina e ignoraria ela era a melhor forma de colocar qualquer sentimento de atração que tinha por ele num ponto onde se tornaria apenas uma emoção desprezível.

    - Ela não está apaixonada! - ele replicou, batendo a mão em punho no banco de madeira. Que droga! por que ninguém conseguia entender que aquilo fora culpa dele? Fora ele quem beijara Marina e agora ela acreditava que ele era o melhor para ela? - Se eu beijar você vai ser o suficiente para dizer isso? Por que você não entende de uma vez por todas? - ele se levantou e parou ao lado dela - Por que acha que se eu quisesse estar com ela eu não estaria ainda amis sabendo que ela também quer isso?! Que droga! De todos os idiotas que me perguntam isso o tempo todo, que me perguntam sobre ela, você é a que mais me irrita Yumi Campbell! - ele esperou que ela ao menos o olhasse dessa vez.

    Yumi sentiu seu estômago se embrulhar enquanto aquela sensação de que lágrimas se acumulavam em seus olhos se fez sentir. Aquilo era ótimo, aquela sensaçãod e que você fez algo estúpido mas podia se desculpar caso aprecesse ser frágil demais. Era ótimo, mas ela não queria aquilo. Ela se virou para Ivaru deixando toda a indignação que sentia tingir seu rosto.

    Uma sensação ruim, aquela sensação que temos um segundo de dizer as coisas que não devemos dizer. Aquele filme cheio de cenas com a pessoa que estamos afastando. Ela mal havia aberto a boca e podia ver Icaru através da grade que separava a quadra e a arquibancada. Ela sorria e acenava e ela acenava timidamente, tinha medo de magoar Marina, mas ele parecia imune a outra garota.

    Ele corria com a bola, batendo-a com rapidez no chão, mas na mente dela cada impacto acontecia em câmera lenta, como as batidas de seu coração, cada desvio dele era como se ele deixasse os adversários para trás e viesse até ela e ele estava vindo, mas quando estava há alguns metros ele saltou, saindo de seu campo de visão.

    Um ponto para o time, ele ainda estava pendurado no arco, rindo e então caiu diante dela, os cabelos ruivos quase cobrindo os olhos, a pele dele com um brilho quase sobrenatural, era tão diferente vê-lo como alguém normal, como um garoto de colégio fazendo cestas para o time.

    - Pra você... - ele sussurrou e então virou-se de costas, correndo novamente para o meio da quadra. Ela sorriu, mas seu sorriso logo sumiu quando ela notou o olhar da outra garota sobre ela.

    Yumi sentiu um calafrio quando seus olhos encontraram os de Marina e ela sentiu que sua amizade com Icaru realmente deveria incomodar a outra garota, mas fora algo que acontecera naturalmente, algo que ela não conseguira impedir.

    - Eu estou falando com você! - Icaru segurou o ombro dela e a sacudiu, Yumi demorou alguns segundos para perceber que não estava na quadra, que ele estava diante dela e que os olhos dela estava vermelhos, assim como a ponta de seu nariz - ... por que está chorando? - ele perguntou, tirando a mão do ombro dela, como se aquilo fosse uma arma e não dedos.

    - Eu não estou... - ela levou as mangas da jaqueta ao rosto, passando-as de forma nervosa sob os olhos, fechando-os por um momento - E eu... - ela mordeu o lábio, lembrando-se do olhar de Marina, lembrando-se do olhar dele ao fazer o ponto, lembrando de cada olhar dele, de cada vez que ele não se importava nenhum pouco de deixar Marina falando sozinha e ir até Yumi. Ela se sentia uma intrusa - ...Eu não quero me apaixonar por você nunca! - a frase escapou, surpreendendo até mesmo Icaru que recuou um passo. Ela havia dito aquilo com tanta raiva que tudo o que ele conseguiu fazer foi erguer as mãos e abrir a boca, mas nenhum som saiu - Eu sou uma idiota irritante, mas você é pior do que eu! E se te irrito então porque quer tanto ficar aqui? Por que você fica dizendoe fazendo coisas como se eu fosse sua amiga? Como se eu importasse?! Como se eu... valesse... - a voz dela foi sumindo. Ela havia tentado ser tão forte, tantas vezes, ainda mais quando estava com Icaru aquilo era tão difícil.

    Icaru ficou em silêncio, observando a garota que insistia em manter a cabeça baixa e enxugar o rosto, fungando o tempo todo, como uma menininha que não conseguia enfrentar seu problema e no caso ele era o problema.

    - Você está me irritando... - ele começou e Yumi sentiu uma pontada no estômago, mesmo bravo, aquele não era o Icaru que ela conhecia, aquelas coisas que ele dizia não eram as coisas que ele dizia - como se valesse... - ele repetiu em voz baixa, aproximando-se então dela, apoiando as duas mãos nas curvas da cintura estreita da garota - você me irrita quando não vê as coisas... - ele completou, puxando-a para um abraço, forçando-a contra seu peito memso que ela relutasse.

    - Pra você - ele havia oferecido aquele ponto para ela no treino do dia anterior e ele queria oferecer mais pontos, havia sido um bom jogo, o melhor jogo an verdade. Agora que estava acostumado com os outros garotos do time, que sabia o quanto poderia se esforçar, ele sentia-se mais animado.

    Ele fez mais pontos na partida, mas quando a procurava nas arquibancas para dizer algo não a encontrava. Yumi havia simplesmente saído e sequer se despedira. Havia acontecido algo?

    Ele sentiu-se irritado, o olhar de Marina parecia perseguí-lo por toda partida e sempre que ele encarava os bancos a havia acenando para ele, vendo-se obrigado a retribuir, vendo-se obrigado a sorrir, mas ele sentia que aquilo estava errado.

    Depois do treino a garota fora falar com ele, mas ele não tinha nada a dizer, ele não sabia o que dizer e isso foi o suficiene para que ela pregasse uma peça nele.

    Os lábios dela moviam-se sobre os dele como na primeira noite dele no Canadá, como a boas vindas de Whitler e tudo o que ele limitou-se a fazer foi afastá-la. Marina sorria de forma vitoriosa e se afastava e ele permanecia ali como uma estátua, sem coragem de dizer o que tinha que dizer para Marina.

    Ele apoiou a cabeça nos cabelos de Yumi e então fechou os olhos.

    - Marina! - ele chamou e a garota parou, surpresa e ele caminhou até ela, olhando-a nos olhos. Era difícil encarar alguém que tem tantas ilusões sobre você, mas ele sabia que se não dissesse aquilo naquele momento ele nunca diria - nós precisamos conversar... - ele começou, torcendo para que nada desse errado dessa vez, para que ela não desmaiasse ou fingesse qualquer mal estar. Ela nunca o ouvia até o fim e aquilo era tão injusto.

    Lágrimas, as mãos dela acertaram seu rosto diversas vezes, frias e quentes, exatamente como todos os sentimentos que passavam pela cabeça da garota. Ele estava sendo sincero, ele não podia ser alguém que ela queria que ele fosse, ele não podia ser o garoto perfeito, porque ele não era perfeito, ele era um fracasso.
    Ele ficou uma longa hora a abraçando ali, perto dos vestiários, ouvindo algumas piadinhas de quem passava, até que por fim ela se acalmou. Não, ela não ia desistir, ela jurara aquilo para ele, olhando-o cheia de mágoa mas ainda cheia de amor.

    Ele passou a mão pelo rosto e deixou-se escorar pela parede enquanto a menina ia embora. Icaru bufou, olhando o corredor agora vazio e praticamente escuro, fora o último a deixar o ginásio naquela noite.

    Yumi permanecia imóvel em seus braços e ele a afastou apenas para ter certeza de que ela ainda estava chorando, que ele a havia magoado com suas palavras, que ele estava sendo dúbio e imprudente com os sentimentos dos outros. Ele não devia ter dito que a beijaria, mas ele quisera dizer isso. O motivo era tão simples.

    - Yumi... - ele colocou a mão sob o queixo dela, erguendo o rosto e vendo os olhos verdes semicerrados cheios de mágoa. Ele quase riu, afinal eram tão irônicos aqueles mals entendidos - Me desculpa... - ele pediu, sua expressão tornando-se estranha enquanto ela apenas assentia dizendo que sim, encarando-o com um ar de superioridade, como se tudo aquilo de agora pouco não tivesse sido nada.

    Ele bufou, soltando o rosto dela e passando a mão pelo pescoço, olhando em volta os últimos raios laranjas se apagando, a escuridão passando a cercá-los.
    - Se pudesse mudar alguma coisa Yumi, quando chegou aqui, você mudaria? Você me... ignoraria aquele dia na escadaria? - ele perguntou, passando a língua pelos lábios, eles pareciam secos como se não bebesse nada há horas.

    - Não! - ela respondeu prontamente, mordendo o lábio em seguida, olhando-o nos olhos. O que era aquela pergunta agora? - Não sou eu quem estou com raiva de você - ela disse - além disso, nada se pode mudar do passado, se mudasse... talvez nada realmente mudasse - ela continuou, sentindo-se confusa e preferindo se calar então. Falar de sentimentos era tão difícil.

    - Então tudo bem - ele assentiu e depois negou com a cabeça, assentindo novamente. O que estaria pensando? Ele estava agindo tão estranho.
    Os lábios de Icaru se fecharam numa linha reta e ele voltou a encarar a garota diante dele, os cabelos ruivos dela apreciam ganhar ainda mais vida ao pôr do sol.
    Ele estendeu a mão, envolvendo a nuca dela, olhando-a fixamente por alguns segundos, seus olhos querendo decorar cada linah do rosto de Yumi antes de se fecharem e então ele a puxou para frente, colando seus lábios sobre os dela, movendo-os com um pouco de urgência enquanto sentia o gosto salgado das lágrimas dela misturarem-se ao gosto doce do refrigerante.

    Icarus entiu os punhos fechados da garota encontrarem seu peito, esmurrando-o tentando afastá-lo, mas ele continuou no mesmo lugar, mesmo que aqueles golpes cheios de raiva o incitassem a fugir. Não, ele não ia fugir, ele ia fazer aquilo pelos dois então, pelo pouco tempo que restava para os dois. Se ele se arrependeria depois e mudaria algo? Não, como Yumi mesma dissera, talvez nada mudasse.

    Os sons de protestos dos lábios dela logo se calaram e então ele deixou sua língua deslizar para fora de sua boca, encontrando a boca dela, sua mão descendo pelos longos cabelos que se enroscavam em seus dedos enquanto com o outo braço ele envolvia as costas dela, trazendo-a para si.

    Então aquela era a sensação certa de se sentir? Quando não era só o desejo que queimava e você queria tanto aquela pessoa como se ela fosse uma parte sua arrancada e agora estivesse ali, prestes a se juntar a você pelo simples toque de um beijo?

    Icaru fechou a mão nos cabelos dela, afastando-os do ouvido de Yumi, deixando seus lábios deslizarem pela bochecha dela até encontrarem seus ouvidos.

    - Você me irrita... porque você não me vê e eu te vejo o tempo todo - ele confessou num sussurro. Estava cansado dela olhar para ele e ver apenas Marina enquanto ele a deixava cada vez mais entrar em seu mundo, cada vez mais guiar o que ele fazia e sentia.

    Ele voltou a beijá-la, deixando sons doces e baixos escaparem de seus lábios enquanto provava a pele dela, o gosto salgado de todo de todo o esforço dela no treino, das lágrimas que haviam escapado. Ele queria aquilo, ele quisera aquilo por muitos momentos.

    Ele se afastou dela, seus olhos procurando o olhar confuso da garota enquanto ele simplesmente sentia-se completamente compreendido. Não havia no que pensar naquele momento, no que questionar. O que ele queria e pensava ficara tão claro que ele sentia que se sua existência terminasse naquela noite ele teria feito exatamente o que tinha que ser feito.

    - Eu quero que me enxergue... a partir de agora eu quero que me veja e não veja outra pessoa além de você ao meu lado... - ele soltou ela de seu abraço e então recuou um passo, deixando sua mão descer pelo braço da garota - Eu... quero você do meu lado, em todos os treinos, em todos os momentos em que você puder fugir e vir até mim, em todos os minutos que você tiveer disponível e quando não tiver mais nenhum tempo. Eu não me importo se isso é ser egoísta, mas eu vi que o amor é egoísta então eu não vou fingir que eu sou melhor do que realmente sou e deixar você livre - ele estendeu a mão - Você... me vê agora Yumi? - ele perguntou, fazendo um gesto no ar - Você vê o quanto vale para mim?

    Yumi sentia o sangue pulsar em suas bochechas, seus olhos fixos em Icaru como se o visse pela primeira vez. A mão estendida dele no ar, as palavras dele, o beijo.
    Seus lábios ardiam ao sentir os resquícios do toque dos lábios de Icaru e ela ainda não conseguia entender o que acontecera. Seu coração batia tão forte como todas as dúvidas e cenas anteriores martelavam perguntas em sua mente, acima de todas aquela que ele fazia.

    Ela conseguia enxergá-lo? Ela conseguia ver além do ex-namorado de uma das garotas do colégio que ainda era apaixonada por ele? Ou ela só via eles juntos e ela ainda era a intrusa?

    A mão de Yumi tremia quando ela a colocou sobre a mão de Icaru e ela sabia que o que dissesse, qualquer coisa que dissesse não seria sincero, então talvez fosse melhor não dizer nada, então talvez fosse melhor aprender a caminhar segurando aquela mão e aprendendo a ver quem ele era de verdade.
    - Eu quero ver você, eu quero te ver de verdade - ela deixou seus olhos encontraram o dele e ele apenas assentiu, o silêncio os cobrindo assim como o anoitecer que finalmente caia.

    Não precisaria de muitas palavras bonitas ou pensadas, agora havia algo novo para ambos, algo que eles descobririam por suas próprias pernas e veriam por seus próprios olhos, com suas próprias feridas, seus erros e acertos.

    Esse se aproximou dela mais uma vez e então a abraçou, no fundo estava feliz por ela não ter dito nada, por não ter colocado sentimentos onde deveria apenas existir o silêncio e quando ela envolveu ele em seus braços ele percebeu que agora ela começaria a vê-lo, a ver somente ele.

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