..:: Breaking the Ice - Cap. III ::.. Losing Grip - Pg 16

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..:: Breaking the Ice - Cap. III ::.. Losing Grip - Pg 16

Mensagem por Convidad em Sex Mar 23, 2012 11:01 am


    A fic contém cenas de violência e linguagem de baixo calão. Não é recomendada para menores de 16 anos!

    Spoiler:
    No capítulo anterior Sara foi surpreendida por Raphael na pista de patinação e ele a fez beber seu sangue. Naquele momento nasceu um laço que pode ser tornar inquebrável entre os dois. Agora mais tempo passou e tudo o que Sara quer é voltar para casa, mas o simples fato de matar as saudades vai fazê-la pagar um preço muito caro!



    Sara parou em meio ao corredor antes mesmo de ouvir as primeiras notas da música. Não, aquele não era o problema, ela até gostava da música, o problema era quem estava cantando. Ela podia sentir claramente a presença dele, ainda mais claro do que qualquer outra depois do encontro deles na pista de patinação, depois que Sara bebeu o sangue dele dando início a um laço que poderia se tornar poderoso.

    Ela voltou a andar, respirando fundo. Quanto tempo o professor poderia demorar? Além disso Raphael Grifftis não estava sozinho na sala de música, Sara conseguia sentir a presença de algumas meninas, todas humanas, três ou quatro. Ele certamente estava se exibindo para que depois elas disputassem quem seria o lanchinho da noite.

    Sara estremeceu. Ela sabia que aquilo era completamente errado e ela jamais caçara um humano, aliás ela jamais caçara, mas muitos alunos do turno da noite tinha aquele hábito e é claro que o vampiro inglês não seria diferente. Por sua vez, Sara tentava se manter com as pílulas e com as parcas vistas do pai, passando também a caçar pequenos animais na floresta, embora fosse tão desajeitada com isso que muitas vezes acabava ficando sem se alimentar.

    Ela parou atrás das meninas que estavam diante da porta, eram três afinal, todas elas com uniforme do turno diurno e seus materias nas mãos, sequer sabiam do perigo que estavam, tão fascinadas com jovem de intensos olhos azuis e cabelos brancos que tocava violino para elas, o queixo pousado sobre a madeira lustrosa do instrumento. Ela sequer respiravam, temendo que o som de seus suspiros estragasse a apresentação.

    Sara mordeu o lábio inferior e então deixou os ombros caírem, desanimada. Ia ter um preço alto, mas ela não podia deixar aquilo acontecer diante dos olhos dela. Como era mesmo que ele a chamava? Amante de mundanos.

    Era exatamente isso o que Sara era, apaixonada por humanos, incapaz de feri-los porque sempre se lembrava de sua mãe, dos olhares destinados a ela, dos olhos mortos dos vampiros sobre os humanos. Como eles não podiam perceber?

    - V-vocês não... - o tom saiu baixo enquanto ela erguia os olhos âmbar para as garotas, então ela recomeçou a frase, tentando colocar a intimidação que sabia que era capaz de por - Vocês não deveriam estar no dormitório? Eu vou chamar o monitor se continuarem aqui! - Sara cruzou os braços sobre o peito e ergueu uma sobrancelha - Como é? Querem que eu arraste vocês? - ela perguntou, estendendo os braços - Vamos!

    As garotas reclamaram, mas havia algo em torno da outra que era um tanto assustador. Elas olharam para Raphael, ele havia parado de tocar e agora abria os olhos lentamente, como se acordasse de um transe e sua expressão mostrava que o que via diante dele não era exatamente o que queria ver. Tudo bem, Sara não se importava com aquele olhar cheio de raiva, ela o conhecia bem.

    - Melhor irem garotas, eu posso tocar para vocês amanhã, posso tocar todas as noites que quiserem - ele sorriu, baixando o violino e o arco, um de cada lado de seu corpo e afastando os cabelos dos olhos com um gesto de cabeça - Não quero que tenham problemas por minha causa, principalmente você Audrey - ele olhou para uma das garotas, ela tinha longos cabelos cacheados e olhos azuis expressivos que ficaram ainda mais felizes por ser mencionada em especial.

    - Tudo bem - ela retribuiu o sorriso de Raphael, corando e abaixando a cabeça, virando-se e olhando para Sara com um ar de desdém - Vamos garotas, depois a gente volta! - ela sorriu e acenou para Raphael, saindo com suas duas amigas pelo corredor.

    Sara encostou-se na parede, cruzando os braços novamente, mas dessa vez ela não tinha uma expressão intimidadora, parecia mais travar uma briga consigo mesmo enquanto franzia o cenho, bufando em seguida.

    Ela ergueu o olhar então a tempo de ver Raphael virar-lhe as costas e ir mais para dentro da sala de música, sua expressão enchendo-se de descrença. Ele não ia avançar no pescoço dela e nem lhe dizer nada? Ela ia escapar assim tão fácil depois de afugentar as garotas?

    "Tudo bem então..." - ela pensou, caminhando para dentro da sala de música. Agora Raphael dedilhava notas sem nexo, como se estivesse afinando o violino ou qualquer coisa do tipo. Ela não entendia muito sobre aquilo e ela não perguntaria. Talvez se fosse qualquer outro ela sequer tivesse expulsado as garotas, mas ela sabia que ficar perto de Raphael Grifftis era algo perigoso demais e para piorar tudo ele parecia exercer uma grande influência principalmente nas garotas. Ele era sedutor, até mesmo no modo como falava, mas Sara sabia que tudo isso se desvaneceria quando estivesse sozinho com sua vítima, quando tivesse uma chance de fincar as presas no pescoço de alguma daquelas garotas, assim como ele fizera com ela, mas ao contrário dela, aquelas garotas não saberiam se defender.

    Sara sentou-se num dos divãs, seus olhos correndo pela sala e por todos os instrumentos que havia ali. Um piano, um violoncelo, nada que realmente atraísse a atenção dela, no fundo ela só participava daquela aula para agradar ao pai, aprender algo mais "clássico" do que sua barulhenta guitarra. Ela suspirou desanimada, esperava aprender algo antes de morrer de tédio.

    Ela se deixou escorregar pelo sofá, ficando praticamente deitada na poltrona, suas pernas quase completamente para fora do acento enquanto seus olhos vagavam pelo papel de parede florido do lugar. Papel de parede, aquele lugar deveria ser mesmo muito antigo.

    "Saco..." - ela pensou, olhando então para as próprias mãos cruzadas sobre a barriga e batendo os pés no chão. Havia se desligado completamente da presença de Raphael, era tão fácil na maioria do tempo quando ele não estava sufocando ela com seu olhar ou então ocupando todo o espaço, como se quisesse contrariar alguma lei da física e provar que duas pessoas podiam ser ocupar o mesmo lugar. Oh sim, isso era bem típico de alguém tão egocêntrico, querer contrariar e forçar sua vontade.

    - Pffff... - o ar escapou de seus lábios e ela se ajeitou no sofá, inclinando-se para frente e apoiando os cotovelos no joelho, seus olhos então notando o violão quase escondido por uma das poltronas. Um pequeno sorriso fez a pontinha de seus lábios se curvarem. Violão. Aquele instrumento lhe trazia tantas lembranças.
    Ela se levantou e atravessou a sala com passos largos, sem se preocupar em manter elegância ou qualquer coisa como era típico das garotas da Night Class. Não havia ninguém a impressionar ali e ela sabia que sua atitude irritava Raphael e ela sinceramente achava que ele lhe dava importância demais, mas assim eram os vampiros porque ela também estava pensando em como cada movimento que ela fazia estaria irritando ele.

    Sara inclinou-se sobre a poltrona e então tirou o violão de seu apoio, sentando-se no braço da poltrona e trazendo o violão para seu colo. A madeira tinha um cheiro forte e mesmo que ela não se interessasse por aquele tipo de coisa era tão óbvio que aquele violão era uma peça valiosa que ela quase se sentiu culpada por tê-lo arrancando de qualquer forma do apoio, mas a única coisa que ela sabia era tocar, não era nenhuma avaliadora ou nada assim, só fazia aquilo para se divertir.

    - É quase patético ver você segurando isso - a voz de Raphael a interrompeu enquanto ela ajeitava o violão no colo e posicionava inconscientemente as mãos sobre as cordas.
    Ela desviou o olhar para ele, a longa franja caindo sobre os olhos e ela deu de ombros. O que ela poderia dizer? Se ele achava patético era só se virar sobre os calcanhares e dar as costas, sair da sala e aproveitar o momento para deitar e morrer.

    - Mas já que está se dispondo ao papel ridículo - ele estava em pé e limpava o violino com uma flanela amarela - Por que não mostra o que sabe? - ele propôs e Sara semicerrou os olhos.

    Ela sabia que mesmo que tocasse o melhor que soubesse Raphael jamais a elogiaria, não havia porque fazer isso, mas mesmo assim ela passou a mão pelas cordas. Não estavam afinadas então ela dedilhou uma a uma enquanto apertava as tarrachas até que as cordas estivessem afinadas e então passou a dedilhar uma música, mas logo desistiu, olhando o violão no seu colo. O que tocar afinal?

    Ela passou a língua pelos lábios e então voltou a posicionar os dedos sobre a corda e logo as primeiras notas de Sweet Child O'mine encheram a sala de música enquanto Sara fechava os olhos, deixando-se levar pela música.

    Em sua mente ela estava em alguma praça da Espanha sentada na grama com os amigos depois de sete aulas chatas de assuntos que eles só decoravam para tirar boas notas. Eles estavam rindo, não havia porque ser diferente. Semana de prova, fora uma daquelas semanas chatas de prova mas era sexta feira e eles estavam todos ali com latas de refrigerantes e cadernos espalhados, alguém havia trazido um violão e logo eles cantavam desafinados, fazendo as pessoas que passavam à volta rirem. Ridículos, mas quem se importava?

    Ela mesma tocara uma música, aquela mesma música que ela estava tocando naquele lugar tão distante de sua Espanha. Whistler era, na opinião de Sara, o lugar perfeito para a Academia, era tão frio quanto as pessoas que ocupavam o dormitório do turno noturno, estavam tão distante de Madrid e todas aquelas diferenças só faziam Sara sentir ainda mais saudades.

    Os amigos que enchiam sua casa praticamente todas as tardes depois das aulas, o carinhoso caloroso dos pais que sempre iam espiar o que eles estavam fazendo no quintal dos fundos. Os pais, até eles haviam sido privados da Espanha pelas coisas que estavam acontecendo, coisas daquele mundo frio dos vampiros.
    Agora Sara entendia perfeitamente porque eles passaram toda a vida tentando mantê-la distante daquela atmosfera. Era tão pesado, era demais e tinha tão pouco a oferecer.

    Ela abriu os olhos, seus olhos castanhos lembravam a terra macia, quente e úmida e encontraram os olhos de Raphael, o azul frio que demonstrava tudo o que havia por dentro e por fora daquele vampiro, um iceberg pronto a esmagá-la. Ele tinha um sorriso dúbio e ela tornou a fechar os olhos antes que o modo como ele a encarava a fizesse desistir de terminar a música.

    Mais lembranças, as amiga e os amigos que a esperavam todas as manhãs na porta do colégio, que não a olhavam como se ela fosse um alienígena, mas como se ela fosse a melhor de todos ali. Todos a adoravam, ela era popular, mas não se gabava disso. Fazia parte de alguns clubes do antigo colégio e mesmo que, graças a sua maldição, ela fosse uma das meninas mais bonitas da escola, ela nunca humilhou qualquer um por isso. Ela definitivamente não conseguia entender como eles podiam agir assim, como podiam recriminar o amor que os pais dela sentiam? Como podiam recriminá-la sem sequer conhecê-la e como poderiam haver outros como ela que aceitavam e achavam isso certo? Não, mas ela tinha que concordar que os humanos também tinha seus podres, ainda assim eram tão frágeis que...

    Ela parou a música. Ela não queria mais pensar nisso, aquele lugar definitivamente a estava enlouquecendo. Sequer olhou para Raphael, tudo o que fez foi virar o violão para baixo e usando-o como mesa de apoio sacou o celular do bolso e o colocou sobre ele. Fazia uma semana que não postava nada em seu Facebook, as matérias da nova escola eram mais difíceis e tomavam mais tempo, mais uma vez ela tinha que decorar coisas que nunca usaria apenas para conseguir nota. Ela acessou à página da rede social e então se surpreendeu ao ver o número de notificações. Seus amigos haviam postado dezenas de fotos da festa de despedida dela, fotos que, com um sorriso doce no rosto, Sara via uma a uma, rindo sozinha, colocando a mão sobre a boca. Ela havia esquecido completamente de seu espectador, mas havia vezes em que Raphael ficava tão imóvel que poderia muito bem se passar por uma estátua.

    Ela passou bons minutos olhando tudo, seus olhos úmidos pelo sentimento de saudade que agora se tornava maior. Quem era ela ali naquele lugar cercado de montanhas e gelo? Nada, uma mestiça como eles gostavam de deixar claro, mas quem ela era em Madrid? Sara, filha de Fernando e Clara, a melhor aluna do colégio Navarro, cheia de amigos que estavam cheios de saudades dela.

    Ela deslizou os dedos pela tela e então passou a digitar uma mensagem, dizia que estava com saudades e que queria voltar o mais rápido possível. Estava ansiosa pelas férias e detestara a escola nova. Não, ninguém tão Canadá era tão divertido quanto qualquer um de seu grupo de amigos.

    As respostas vieram em poucos segundos e logo haviam mais de cinqüenta comentários, todos perguntavam quando ela voltaria, porque havia ido tão repentinamente. Ela não pudera explicar, não pudera se despedir apropriadamente, a festa fora feita às presas numa lanchonete dentro do aeroporto.
    Mas dentre todos os comentários um surpreendeu ainda mais a garota. Fernando Augustine.

    Os olhos de Sara encheram-se de lágrimas e ela não acreditou quando viu a foto dos pais e o comentário: Estamos com saudades filhota, de você e da Espanha.
    Seu pai havia aprendido a mexer no Facebook? Quando? Ela não pode deixar de rir enquanto passava as costas das mãos sob os olhos, sentindo o peito doer ainda mais. Como ela queria estar com ele ensinando tudo que podia ensinar sobre computadores e internet. Certamente sua mãe quem o incentivara a isso, afinal Fernando era do tempo que sequer existiam máquinas de escrever.

    "Ah papai... como eu queria estar ai com você, você deve ser tão engraçado digitando..." - ela suspirou, talvez devesse ligar para eles. Se ele estava na internet então não estava ocupado.

    Sara deslogou-se da rede social e então acessou ao teclado numérico do aparelho, seus dedos digitando rapidamente os números do celular do pai, o tom de toque deixando a menina ainda mais ansiosa, fazendo-a levar a unha do polegar à boca e roer.

    - Hola, Fernando Augustine hablando - a voz do pai fez o rosto de Sara corar enquanto como uma menininha boba ela retirava o dedo da boca e começava a falar.

    - Papa... - ela chamou e sua voz trazia não só respeito, mais uma feto desmedido. Ela se virou de costas para Raphael, falando em espanhol com o pai por alguns minutos, dizendo que não estava triste com a escola, mas que sentia falta dos antigos amigos. Mentira dizendo que não tinha problemas, pois não estava ali seu maior problema observando-a, ouvindo cada palavra que ela dizia ao pai. Talvez com sorte ele não soubesse espanhol.
    Amigos? Ah sim, ela fizera amigos e estava se dando bem com todos claro, não, não estava com sede e não estava tendo problemas com os outros vampiros, eram todos amáveis. Sem exceção.

    Mentir só não fora tão difícil quanto ter que desligar o telefone e despedir-se de seu pai sem poder falar com a mãe. Havia saído, voltaria dentro de algumas horas. Talvez Sara pudesse ligar mais tarde, ela certamente ligaria, ainda mais depois que o pai dissera que Clara visitava o quarto da filha todas as noites, tão saudosa quanto ela. Cada noite Sara desejava estar de volta naquele quarto, sob a proteção de seus pais, mas estava sozinha e tinha que se contentar com isso.

    Quando desligou seus ombros caíram e ela deixou-se cair novamente no sofá, olhando o violão que havia deixado virado sobre o braço da poltrona a frente. Só então ela se deu conta que Raphael não estava ali. Onde ele teria ido? Ela sequer notara que ele saíra.

    "Talvez seja melhor eu ir também, acho que a aula de hoje foi cancelada" - ela levantou-se do sofá e guardou o telefone no bolso. Teria cerca de uma hora ainda pela frente, uma hora vaga, então decidiu aproveitar o momento para ver as fotos que os amigos postaram com mais calma.
    Sara foi até o terraço, o vento frio que soprou quando ela passou pelas portas duplas a fizeram estremecer e se encolher dentro do casaco do uniforme, mas não havia o que temer, não havia ninguém ali.

    "É só o frio..." - ela pensou enquanto caminhava pelo piso e se aproximava da beira. O quarto andar do prédio principal dava uma visão privilegiada de toda a Academia e era um dos lugares preferidos de Sara, principalmente para ver o nascer do sol.

    Ela foi para a ponta esquerda do terraço e então sentou-se num velho banco de ferro que havia ali, colocando as pernas para cima, ficando praticamente deitada enquanto via as fotos. Ela fez questão de comentar em cada uma das fotos que sua amiga Camile postara e mais uma vez as respostas vieram rápido. Perdera um bom tempo naquilo, sequer vira a hora passar.

    "Quase duas da manhã, talvez seja melhor eu voltar para o dormitório..." - ela pensou enquanto se levantava do banco, guardando mais uma vez o celular que estava praticamente sem bateria e então caminhando em direção às portas duplas, mas mal as havia alcançado quando sentiu a presença de Raphael, mas ele não estava sozinho.
    O instinto fez Sara se esconder atrás de uma das pilastras, vendo então o vampiro e a humana de mais cedo. A garota parecia um tanto zonza e Raphael a levantou e a apoiou diversas vezes. Daquele modo a jovem morena mais parecia uma boneca de panos do que qualquer outra coisa.

    Demorou poucos segundos mas logo Sara sentiu o cheiro doce que se espalhava pelo ar, um cheiro que fez sua garganta arder e seus olhos se acederem. Ela arfou, colocando a mão sobre a boca e se apertando contra a parede.

    "Não..." - a mente de Sara estava prestes a entrar em pânico. Raphael estava atacando a humana e era melhor Sara controlar sua sede e fazer alguma coisa, ela jamais poderia compactuar com aquilo.

    - ... - ela saiu detrás da pilastra, as mãos fechadas em punhos, no exato momento em que o vampiro erguia a humana desmaiada nos braços e a jogava pela murada do terraço. Os olhos de Sara se arregalaram e ela cambaleou para trás da pilastra novamente, seus joelhos tremendo enquanto ela escorregava escorada pelo pilar de concreto - ...meu...Deus... - a voz saiu num fio. Raphael havia simplesmente jogado a garota de quatro andares, ele havia matado Audrey mesmo sabendo todas as conseqüências que aquilo poderia trazer. Logo o cheiro de sangue ia se espalhar, logo os outros vampiros seriam atraídos - ...não... - Sara conseguia ver os olhos vermelhos surgindo na escuridão do jardim, encarando o corpo sem vida. Seriam capazes de começarem um festim macabro? Ela estava morta afinal... Resistiriam ao sangue? Desperdiçariam aquela chance?

    Ela fechou os olhos apertados, querendo afastar aquela imagem terrível da mente e quanto os abriu se deparou com um par de sapatos pretos que subiam por calças pretas e então aquela pesada jaqueta de couro. Sim, ela conhecia muito bem aquela jaqueta.

    - O que está fazendo aqui? - a voz dele saiu baixa mas cortante enquanto ele se inclinava sobre ela e a puxava para o braço, obrigando-a a ficar em pé. Seria fácil, mas seus joelhos ainda tremiam - Está surda? - ela a sacudiu e ela o olhou, seus olhos enchendo-se de medo e raiva, aquela mistura que parecia atiçar ainda mais Raphael Grifftis, parecia satisfazê-lo.

    - S-seu... monstro! - ela cuspiu a palavra, olhando então para a mão fria que apertava seu braço num aperto de ferro. Os dedos pálidos afundavam no tecido do caçado sem dó alguma - O...o que você fez...? - ela tornou a olhá-lo e ele limitou-se a empurrá-la contra a parede com força.

    - O que você viu? - ele perguntou, se aproximando mais dela e segurando seu queixo. Mais marcas, da última vez seus dedos ficaram impressos no rosto dela por toda uma tarde. Ele deslizou os dedos pela bochecha dela, erguendo ainda mais seu rosto, num aperto nada gentil que a fez trincar os dentes - O que acha que viu? - ele aproximou o rosto do dela, seus narizes se tocando.

    Ela ergueu imediatamente as mãos e segurou os pulsos dele, usando toda sua força para repeli-lo, para fazê-lo soltá-la, por sorte não era tão mais fraca do que ele, ou ele simplesmente não queria lutar, não naquele momento, pois soltou seu rosto.

    Ainda assim Raphael Grifftis continuava próximo demais, de uma maneira perigosa. Seu corpo praticamente esmagava Sara contra a parede e agora ela matinha as duas mãos sobre o peito dele, tentando manter uma distância mínima entre os dois.

    Ele a olhou e riu, mais uma vez seu brinquedinho estava desesperado e mal podia lhe responder. Era sempre assim, Sara sempre se desesperava com facilidade e isso a fazia agir de modo impensado, complicando-a ainda mais. Era definitivamente mais divertido enlouquecê-la como naquele momento do que matá-la. Talvez quando enjoasse, mas naquele momento não.

    - Vem! - ele segurou o pulso dela com força e praticamente a arrastou. Ela tentou parar, mantendo os pés firmes no chão, mas com um puxão Raphael a trouxe para perto, seu braço livre envolvendo a cintura dela enquanto ele soltava se pulso e segurava seu pescoço.

    - Como vai ser Sara? Eu posso machucá-la de verdade, de um modo que eu ainda não tentei com você. É o que quer? Como você vai voltar para seu papai depois? - ele a olhava nos olhos, deixando os longos dedos envolverem o pescoço dela, ficando as unhas na pele macia e quente, tão diferente da dele. Raphael não sentia o calor, ele não sabia mais o que era calor.

    Sara ergueu as mãos mais uma vez para tentar se livrar do aperto dele, seus olhos agora perfuravam os de Sara, mas ainda assim ela insistia em encará-lo.

    - Quer cuspir em mim de novo? Não, eu vou ocupar sua boca mais uma vez - ele disse, subindo a mão do pescoço dela sem sequer parecer afetado pela dor que os arranhões que ela fazia em seu pulso causavam. Ele agarrou o rosto dela, afundando as unhas na pele e puxando para baixo, deixando quatro longos risco vermelhos, dois de cada lado, olhando então os dedos sujos com o sangue quente da vampira, quase tão quente e tão doce quanto sangue humano, tão imaculado que Raphael sentia-se cada vez mais tentado. Ele queria destruí-la, mas faria isso aos poucos.

    - Agora vem! - ele se afastou e então ergueu algo em sua mão, algo que calou qualquer protesto de Sara.

    Reluzindo sob o luar, o aparelho celular de Sara brilhava na mão de Raphael, fazendo Sara encará-lo com a boca entreaberta, perguntando-se quando ele havia pego aquilo.

    Era tão claro, seu rosto latejando e doendo a distraíra quando ele a abraçara e agora o bem mais precioso dela naquele lugar estava ali entre os dedos do outro vampiro.

    - Vem... - ele sorriu, expondo uma parte de seu sorriso, os cabelos caindo sobre os olhos conforme o vento varria o lugar, mas Sara sequer reparava em sua imagem, seus olhos continuavam fixos no aparelho nas mãos dele, enquanto por dentro ela sentia-se quebrar.

    - Por favor... - ela olhou então para ele, cambaleando para frente, tentando apanhar o celular, mas ele desviou para o lado, rindo da tentativa inútil da vampira.

    - Vem e eu te dou, primeiro você precisa fazer algo, uma coisa que vai me dar a certeza de que você vai ficar bem quietinha sobre nosso segredinho - ele colocou um dos dedos sobre os lábios, notando então que ainda estavam sujos com o sangue da outra vampira. Sim, talvez ele até os lambesse se não soubesse do que Sara era capaz, mas ele não cometeria o erro duas vezes.

    A Sara não restou nenhuma outra alternativa a não ser segui-lo, seus olhos ainda olhando uma última vez para o lugar onde ela vira Audrey ser arremessada, a sensação de fracasso tornando-se ainda maior, assim como a revolta. Por que ela não podia ser como os outros? Ter poderes como os outros?

    Ela tratou de cicatrizar o rosto, limpando o que sobrara do sangue no casaco, tirando-o e o enrolando nos braços, ficando apenas com a camisa preta do uniforme. Onde estariam indo? O que importava afinal, ele certamente a deixaria a própria sorte como da outra vez.

    Apenas os sons dos passos de ambos pontuou o caminho, Raphael acendera um cigarro enquanto cruzavam os cascalhos que ligavam o prédio principal ao dormitório noturno, pouco se importando com as regras do lugar.

    Ele abriu a porta do dormitório e a esperou entrar, jogando a bituca de cigarro para fora antes de cerrar a porta.

    - Lá em cima - ele apontou para as escadas que levavam aos quartos e Sara sentiu um nó se formar na garganta. O que ele poderia querer com ela? - O que? Não quer seu celular de volta? - Raphael sorriu de lado - Não seja tão estúpida, acha que eu vou querer o que com você? - ele passou a língua pelos lábios - Não, você sequer serve para isso, agora suba! - ele ordenou e Sara teria sentido o rosto queimar se não estivesse com tanto medo, tamanha a humilhação que as palavras dele traziam.

    Ela subiu os degraus lentamente e ele pouco pareceu se importar com os passos lentos dela. Quando alcançou o andar superior Sara sentiu vontade de descer as escadas correndo. Não, naqueles meses todos ela não se aventurara fora do quarto em meio à madrugada, mas agora ela podia sentir o cheiro de sangue se espalhando pelos quartos, podia ouvir os gemidos cheios de luxúria, os verdadeiros alunos do turno noturno estavam sem máscaras, estavam sendo eles mesmos. Ela se abraçou, abaixando a cabeça e parando em meio ao corredor. Por que eles agiam daquele modo? O que havia de errado com todos eles?

    - Anda! - um sussurro baixo soprou ar gelado em sua nuca e ela forçou a andar, mas os pés pareciam presos no chão - Vadia - ele a empurrou e ela bateu contra a porta de um dos quartos, afastando-se assustada, deixando o casaco cair, mas aquela era a porta do quarto dele - Entre - ele parou ao lado da porta e a abriu, puxando então Sara pelo braço para dentro.

    Assim que entrou Raphael tirou a pesada jaqueta, jogando-a sobre a cama que estava totalmente bagunçada, o quarto em si estava totalmente revirado, como se houvesse acontecido uma luta ali e de certa forma houvera.

    Sara conseguia reconhecer o cheiro de Audrey no quarto e agora imaginava o quanto a menina teria sofrido nas mãos do outro vampiro.

    - O que Sara? Acha que ela sofreu? - ele riu, deixando-se cair de costas na cama - Ah Sara como pode ser tão ingênua? O que acha que ela veio procurar aqui? - ele se sentou num único movimento e apoiou os cotovelos sobre o joelho, encarando a menina que havia simplesmente se encostado na porta trancada - Ela teve o que queria e eu tive o que eu queria, uma troca bem justa, não acha? - ele sorriu, levantando-se e indo até ela, apoiando uma das mãos na porta atrás de Sara, deixando o braço se dobrar até que mais uma vez Sara não tivesse para onde correr, estivesse presa entre ele e a porta - E você Sara? O que você veio buscar aqui? - ele segurou o queixo dela, mas dessa vez sem feri-la, baixando o olhar até que seus olhos encontrassem os olhos cheios de mágoa dela.

    - Sabe Sara o que mais odeio em você? - ele perguntou enquanto a encarava, o aperto começando a aumentar a pressão - Sua hipocrisia. Olhe para você, se tivesse visto como ficou ao sentir o cheiro de sangue. Olhos vermelhos, sedentos. Ah Sara, você queria aquilo também! Só não tem coragem de pegar, só fica tentando negar a você mesma quem é! Você é uma de nós Sara - ele se aproximou mais dela, sussurrando sobre os lábios trêmulos da garota - Você vai ceder mais cedo ou mais tarde Sara e seu papai não vai estar aqui para ajudar... Olhe para mim - ele se afastou e então aproximou ainda mais seu corpo, cada linha encaixando-se ao corpo de Sara, fazendo-a se apertar inutilmente contra a parede como um inseto esmagado - Cedo ou tarde você vai desejar...- ele ergueu a mão e a levou até a boca, mordendo a ponta dos dedos, os cortes logo começaram a sangrar - Desejar como nunca desejou - ele passou os dedos molhados pelo líquido púrpura sobre os lábios dela e os olhos de Sara se acenderam.

    - Não! - ela tentou empurrá-lo, mas ele apertou ainda mais seu rosto e seu corpo.

    - Shi shi... sem escândalos, ou vou tornar isso bem pior - ele afastou a mão e lambeu o próprio sangue, sua mão então descendo pela gola de sua camisa e abrindo dois botões - Venha, satisfaça seus desejos Sara. Você não vai matar ninguém, mas vai beber o sangue. Ainda está fresco, ainda está quente dentro de mim.

    - ...não... - Sara fechou os olhos e virou o rosto, seus ossos estralando e causando uma dor intensa, mas ela não cederia dessa vez - não... - ela praticamente chorava, implorando que ele a soltasse, suas mãos passando a socar o peito dele, os sons ocos enchendo o quarto e o corredor.

    Raphael soltou o resto dela e a segurou pelos dois ombros, batendo-a com força contra a porta, fazendo-a bater a cabeça, puxando-a então para o lado da parede e a batendo novamente contra o concreto.

    - Vadia idiota! Acha que qualquer uma pode beber meu sangue? Beba logo ou vou enfiá-lo em você eu mesmo! - ele gritou contra o rosto dela. Pouco se importava se os outros ouvissem, o que fariam? Eles eram desprezados, quem viria salvar Sara? - Se não beber pode dar adeus aquela droga de celular, pode dar adeus a seus pais! Então, o que vai ser? - ele a soltou e Sara encolheu contra a parede.

    Seus cabelos bagunçados cobriam o rosto ferido, um filete de sangue escapava pelos lábios, com as pancadas havia mordido a língua o mordido os lábios, agora eles sangravam espalhando o cheiro doce do sangue dela no ar, o cheiro sobrepondo-se ao cheiro de Audrey.

    Então era por isso que ele a levara ali? Para encontrar as pistas?

    Ela ergueu os olhos para ele, como um animal ferido e sem escolhas, tudo o que ela podia fazer era o que faria naquele momento. Suas mãos trêmulas subiram pelo peito de Raphael, os dedos enroscando-se na gola da camisa dele enquanto ela se aproximava lentamente, desviando o olhar para a veia.
    Sara entreabriu os lábios feridos, passando a língua por eles, sentindo-os arder, assim como seu rosto ardeu quando as lágrimas passaram a descer. O que ela podia fazer afinal? Simplesmente morrer?

    Os lábios dela tocaram a pele fria de Raphael e logo deslizavam sobre o pescoço dele, sua língua descrevendo uma linha horizontal, onde suas presas afundaram lentamente segundos depois. Por mais ódio que sentisse dele ela não conseguia feri-lo, não conseguia rasgar o pescoço dele com seus dentes e causar-lhe dor, simplesmente porque aquele era o único modo como ela sabia morder.

    No instante seguinte os lábios dela sugavam a pele dele, puxando o sangue que logo vertia para sua boca. Um mistura confusa de imagens se desenharam em sua mente enquanto Raphael se aproximava mais, um dos braços envolvendo a cintura dela e a empurrando para trás, até que ela encostasse na parede novamente. Como se ela fosse capaz de fugir para qualquer lugar, até parece.

    Ela afundou mais as presas na pele fria do outro vampiro e ele gemeu, o braço na cintura de Sara estreitando-se mais.

    Mais cenas confusas, borrões que lembravam a imagem de Audrey, o caminho que ela fizera até ali, risadas abafadas, o momento em que a porta do quarto se fechara, o momento em que ela se deitara com Raphael, tudo em cenas confusas que deixaram Sara ainda mais confusa.

    As mãos dela pareceram ganhar vida, subindo pelos ombros de Raphael, os dedos enroscando-se nos cabelos platinados do vampiro enquanto um gemido abafado escapava de Sara. Outra barreira rompida, um passo a mais no caminho da escuridão que a cercava, algo que cobraria um preço alto depois.

    A mão dele subiu pelas costas de Sara e ela estremeceu quando ele passou a perna por entre as pernas dela e a apertou mais contra a parede. Era apenas impressão ou ele havia virado o rosto?

    Ela descravou as presas do pescoço dele, inclinando a cabeça para trás, seria aquela sensação gelada sobre sua pele os lábios dele? Os dedos dela se fecharam com mais força, arranhando a nuca dele, arrancando mais um gemido de Raphael.

    Que sensação era aquela? Algo tão desconhecido que a fazia se sentir zonza enquanto o sangue dele descia por sua garganta, molhava seus lábios, e ele estava ali, tão próximo ao pescoço dela.

    - ... - como se acordasse de um transe Raphael se afastou dela, empurrando-a contra a parede, fazendo-a encará-lo assustada. Os olhos vermelhos fuzilavam Sara e a respiração dele saia praticamente em bufadas - Vadia! - ele disse entre os dentes trincados, segurando-a então pelo braço enquanto abria a porta - ...vagabunda! - ele praticamente cuspiu o xingamento enquanto a jogava para o corredor, fechando a porta com força em seguida, o estrondo ecoando por toco o corredor enquanto a parede estremecia.

    Sara olhou em volta assustada, mas não havia ninguém do lado de fora. Ela abraçou-se, ainda atordoada com tudo o que havia acontecido e sem opção melhor ela rastejou seus passos até seu quarto, parando em meio ao corredor para pegar seu casaco caído, seu quarto era do outro lado do dormitório, longe o suficiente de Raphael, mas talvez nem o lugar mais isolado do mundo fosse ser longe o bastante agora.

    Seu peito doía como se algo ali estivesse quebrado, cada respiração a feria mais, mas ela sabia que era apenas o sangue de Raphael misturando-se ao seu, mesclando-se de uma forma que jamais poderiam ser separados novamente.

    Ela entrou no quarto, seu dedo deslizando pela maçaneta como se ela fosse pesada demais, mas ela cedeu mesmo assim. Por sorte sua colega não estava, ou se assustaria ao ver praticamente um zumbi passando pela porta.

    Sara jogou-se na cama e puxou o cobertor, cobrindo até sua cabeça, logo o som de seus soluços povoaram mais uma vez o quarto. Havia bebido o sangue dele mais uma vez, havia desejado aquilo e havia descoberto mais uma nova sensação, algo que queria que saísse de sua mente, mas a pele de seu pescoço ainda ardia onde os lábios dele havia tocado. Por que? Por que aquilo estava acontecendo?

    O pior de tudo era que fora totalmente despropositado, afinal ela fora expulsa do quarto dele e ele não lhe devolvera o celular.
    Sozinha, embalada pelos próprios soluços, Sara acabou adormecendo, exausta pelas sensações que agora corriam em seu sangue, exausta pelo peso de seu próprio pecado. Agora ela estava perdendo o controle.

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