..:: Breaking the Ice - Cap. V ::.. Melting - Pg 16

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..:: Breaking the Ice - Cap. V ::.. Melting - Pg 16

Mensagem por Convidad em Seg Mar 26, 2012 9:44 pm






Spoiler:
"Talvez ele fosse meu inimigo, talvez aquilo fosse apenas uma amizade mal compreendida. Eu não sabia, mas sabia que meu fim estava próximo, próximo a Raphael Grifftis.
As memórias da noite passada eram confusas e minha cabeça doía. Me lembrava do salão cheio de humanos e vampiros, me lembrava das luzes piscante e da pressão nada gentil em meu rosto, me fazendo engolir aquela bebida. Eu me lebrava dele, seu olhar, sua expressão. Mas não me lembrava de nada que pudesse explicar porque...eu cheirava a sangue fresco... sangue humano. O que fiz nessa noite?
Eu não sei, sempre que tento recordar minha cabeça dói, meu corpo dói e começo a acreditar que seja melhor que essas memórias continuem ocultas porque se ele estava lá, então nada do que fiz pode ter sido bom.
Talvez eu esteja sendo covarde, mas tenho medo do que sinto, do que me transformo quando ele está por perto. Eu não queria mais ficar perto dele, queria que papai tivesse me levado embora. Foi difícil mentir para ele e vê-lo partir.
De qualquer forma eu ainda não peguei meu celular e eu preciso fazer isso. Esta noite, eu vou acabar com isso esta noite!"

Sara Augistine, 13 de maio


    Os dedos pálidos de Raphael giravam o celular de Sara entre os dedos enquanto na outra mão ele segurava o cigarro aceso. Havia acabado de tomar um longo banho e estava planejando onde caçaria, afinal depois da morte de Audrey estava difícil conseguir alguma coisa na Academia. A segurança em torno dos alunos da Day Class estava ainda mais forte e como se não bastasse isso ainda havia Sara.

    A vampira sempre aparecia quando ele estava prestes a ter o que queria, sempre o atrapalhava. Se bem que depois do que havia acontecido da última vez ele duvidava que Sara fosse interferir mais uma vez, mas era claro que ele não poderia arriscar.

    Ele se virou sobre a cama e deixou o celular sobre o criado mudo, era hora de escolher algo para vestir afinal ainda estava apenas com calças jeans, pretas, na cor que ele mais apreciava. Sua jaqueta também era outra peça garantida, mas ele precisava de uma camisa, nada muito elegante, ele não pretendia ir a nenhuma boate ou algo assim. Uma caçada rápida pela rua seria o suficiente.

    Ele mal havia alcançado o guarda roupas quando sentiu a presença de Sara parada junto à porta. O que ela queria dessa vez? Ah sim, era óbvio, assim como era óbvio que ele não devolveria. Ter o celular dela estava ficando cada vez mais divertido, mesmo que o aparelho estivesse descarregado e ele não pudesse fuçar tanto quanto gostaria ter o que era mais precioso para Sara era algo maravilhoso.

    Ele abriu a porta do armário e correu os olhos pelas camisetas e camisas que tinha esperando Sara bater à porta ou qualquer coisa assim, mas ela permanecia parada ali, como se estivesse decidindo o que fazer. Imaginar a expressão da vampira do outro lado da porta fez Raphael sorrir e se adiantar, abrindo à porta, seus lábios ainda com o sorriso maldoso de segundos atrás.

    - O que você quer? - ele perguntou encarando a expressão surpresa da vampira, durou pouco, ela logo fechou a cara - Entre - os olhos dele se semicerraram enquanto ele dava espaço para ela passar.

    Sara hesitou entrar ali não era o melhor a se fazer, ela sabia disso, mas precisava conversar com ele, precisava de seu celular.

    Seu pai a havia visitado no dia anterior e havia perguntado o porquê dela não responder mais os e-mails. Ela não disse a verdade, jamais poderia dizer.
    - Desculpe papai, mas um amigo muito querido do turno diurno está com problemas na família, sua mãe está doente e ele não tem celular, pediu o meu emprestado e eu não tive como negar... - ela respondeu de cabeça baixa. Não, não era nenhum aluno do turno diurno e muito menos alguém que precisasse que estava com seu celular - Eu pedi que respondesse seus e-mails e me avisasse quando chegassem, mas ele deve ter esquecido, está tão aflito papai - ela suspirou, era tão ruim mentir para seu pai.

    - Tudo bem, eu entendo. Fico feliz por você ajudá-lo com algo que é tão precioso para você - Fernando acariciou os cabelos da filha e ela o abraçou.

    Sara não queria que o pai visse a expressão dolorosa em seu rosto, estava a ponto de chorar, de quebrar diante dele, mas não faria isso. Ele já tinha preocupações demais, ela não queria que sua inutilidade em defender piorasse a situação de Fernando. Ele contava com ela, havia enviado ela para Academia julgando que ela estaria segura, que aprenderia a conviver com os dois mundos.

    - Eu te amo papai, me desculpe por não ter avisado antes - ela disse enquanto o abraçava poucas horas depois ele se foi, voltaria par ao Japão naquela tarde mesmo. A mãe de Sara não pode ir.

    Sara entrou no quarto de Raphael, seus lábios numa linha reta, os olhos sem analisar a bagunça do lugar, sem notar a cama vazia ao lado da cama de Raphael, o companheiro de quarto dele havia deixado a Academia. Ela só reparou no aparelho que estava sobre o criado mudo ao lado da cama dele, segurando-se para não saltar ali e tentar apanhá-lo. Seria um esforço inútil.

    - Então, o que você quer? - a voz de Raphael ao seu lado a fez se encolher, agressiva, tanto quanto a mão dele que agora apertava seu braço. Ela não havia feito nada, mantivera-se o mais distante possível, mas agora ela precisava do aparelho de volta.

    Sara engoliu em seco, erguendo o olhar temeroso e ao mesmo tempo cheio de raiva para Raphael, seus olhos encontrando a imensidão azulada que parecia engoli-la.

    - Meu celular - ela disse num tom baixo, logo desviando o olhar dele para o aparelho sobre o criado mudo - Por favor, meu pai esteve aqui, você já deve saber e ele ficou preocupado, queria me dar outro aparelho. Não é justo o que está fazendo - ela continuou naquele mesmo tom baixo, mas sem encará-lo, havia uma pontada de dor mal disfarçada em sua voz, não pelo aperto no braço, as agressões de Raphael pareciam não mais doer, ela já sabia em quais pontos ele a feriria, então o corpo parecia ter se acostumado aquilo.

    - Sim eu soube - Raphael passou a língua pelos lábios e então soltou a braço dela, empurrando-a para frente - Tudo bem, eu devolvo - ele respondeu simplesmente e Sara o encarou, mais uma vez surpresa.

    - E-eu posso? - ela apontou o aparelho e Raphael cruzou os braços sobre o peito, os músculos se destacando. Parecia novamente uma estátua daquele modo, os olhos parados sobre ela. Seria assim tão fácil?

    Sara deu um passo para frente, mas antes que pudesse avançar ele bloqueou seu caminho. Era claro que não seria tão fácil assim.

    - Mas quero algo em troca Sara afinal você me deve muito - mais uma vez ele segurava o braço dela, mas ao invés de afastá-la, ele a puxou para si.
    Num impulso Sara ergueu a mão livre e colocou sobre o peito dele, sentindo a pele fria sob os dedos, sentindo o hálito frio dele bater contra seu rosto. Por que ele sempre tinha que ficar tão próximo? Apenas para esmagá-la com sua presença? Não conseguia ver que a simples existência dele já era bastante esmagadora depois de tudo?

    - O-o que quer? - ela fechou os olhos, a coragem de encará-lo, de cuspir qualquer insulto na cara dele ainda não havia chegado e ela não queria ver o quão próximo ele estava, aquelas sensações que ele despertava não eram bem vindas.

    - Algo simples, algo que você não lutou para ter, não pecou para ter - ele abaixou o rosto, aproximando-se do ouvido dela - Sem represálias.
    Sara não entendeu as palavras dele embora seus instintos a alertassem de que, fosse e o que fosse não era algo bom.

    Raphael apenas havia resolvido juntar o útil ao agradável, afinal o cheiro doce e forte do sangue de Sara havia se espalhado assim que ela entrara no quarto, ainda mais tentador por conta do sangue que ela havia bebido um sangue tão poderoso que era servido de bom grado à garota, um sangue que até mesmo os nobres acima deles adorariam ter.

    - Não entendeu não é? - ele soltou o braço dela e ergueu a mão até o pescoço dela, afastando os longos cabelos castanhos, seus olhos fixos na veia do pescoço - Seu pai veio visitá-la, está tão bem alimentada, sem esforço algum e eu por sua culpa não posso me alimentar. Ah Sara, você é tão injusta... - ele sussurrou seus dedos deslizando pela pele quente e macia dela, quase como de uma humana. Sara era tão diferente dele, dolorosamente diferente.

    - Não! - ela se afastou, recuando dois passos, mas ele agarrou o braço dela novamente, os olhos azuis ficando escarlates no mesmo instante.

    - O que? Você vai dizer que estou mentindo? Você me deve isso! - ele vociferou contra o rosto dela, puxando-a para o lado e a empurrando, fazendo-a cair sentada na cama - Sabe muito bem que posso tomar a força, mas quero garantir que não vai usar seus truques sujos para me ferir! Estou com sede Sara você com certeza não vai querer me ver enfurecido assim e, como disse, devolvo seu celular. Nós dois saímos ganhando - Por que caçar quando havia um sangue tão precioso ali?

    Sara afundou as mãos no colchão, as unhas fincadas com força contra o lençol, o tecido começando a ceder a sua força. Dar o sangue de seu pai assim, desse modo, para alguém como Raphael era praticamente inaceitável.

    - O que vai ser Sara? Vou precisar rasgá-la em pedaços? - ele se aproximou dela, o olhar de Sara subindo pelas longas pernas vestidas de preto, contrastando imensamente com a pele clara e perfeita que cobria os músculos definidos e fortes do vampiro. Ela era tão pequena diante dele.

    -... - Sara não sabia o que responder, ela não queria dar seu sangue para ele, jamais faria isso de bom grado, mas talvez aquele fosse o momento para por um fim em tudo aquilo, deixar Raphael tomar o sangue que quisesse, mesmo que ela sentisse sede depois, então estaria livre dele -... - sem nada dizer ela afastou os cabelos do próprio pescoço e abaixou o olhar novamente. Aquilo seria bem mais doloroso do que ela imaginava, tinha certeza de que Raphael não seria gentil ao beber seu sangue, ele a feriria o máximo que pudesse.

    - Muito bom... - ele disse enquanto se ajoelhava diante da vampira, uma mão sobre a coxa dela enquanto a outra segurava sua nuca com firmeza. Ela não ia fugir, não tinha porque fugir.

    O corpo de Sara estremeceu ao sentir o toque frio dos lábios de Raphael sobre a pele dela, suas unhas fincando-se ainda mais no colchão enquanto ela entreabriu os lábios. Aquelas sensações, as mesmas das noites anteriores. Ódio misturado ao desconhecido. E ela não queria desvendar o que era aquilo.

    A língua dele passeou sobre sua pele, sobre sua veia e ela engoliu em seco ao sentir as presas dele deslizarem ali, afundarem, fazendo-a erguer a mão e segurar o ombro dele. Ela pretendia afastá-lo? Para que? Afinal o sangue dela agora era sugado pelos lábios dele num longo gole enquanto as presas dele afundavam ainda mais em sua pele.

    A mão de Raphael subiu para a cintura de Sara, empurrando-a para trás enquanto ele se forçava mais para frente, sobre ela, obrigando-a a se deitar.
    Sara deixou-se guiar, deitando-se na cama, o cheiro amadeirado de Raphael espalhado naqueles lençóis, fazendo mais uma vez ela se perguntar como não havia cheiro de fumaça ou tabaco ali, sendo que ele fumava praticamente o tempo todo.

    Um calafrio interrompeu seu pensamento no momento em que Sara sentiu o peso do corpo de Raphael sobre o seu, a mão que segurava sua nuca a soltando, ele agora usava o braço para se apoiar na cama, mas a outra mão que estava em sua cintura subiu lentamente até alcançar o rosto dela e segurá-lo com firmeza.

    Ele passou uma das pernas entre as dela e sorveu mais um longo gole de sangue, seu corpo praticamente a esmagando, fazendo-a respirar pela boca, fazendo-a ofegar e tentar empurrá-lo, mas ele não cedeu um milímetro sequer, pelo contrário, ele apertou-se ainda mais contra ela, um gemido abafado escapando dos lábios dele enquanto ele apertava sua coxa contra a dela.

    A mão de Sara se fechou sobre o peito dele, as unhas arranhando a pele fria do outro vampiro, o cheiro do sangue dele se fazendo sentir um segundo depois, fazendo a garganta de Sara arder.

    -... Não ela murmurou como uma prece, como se tentasse impedir que o que sentia ao sentir o cheiro do sangue dele, ao lembrar-se das sensações que lhe causavam -... - o polegar dele deslizou pelo rosto dela e parou sobre os lábios dela, como se quisesse silenciá-la e mais um longo gole do sangue quente e doce de Sara desceu pela garganta de Raphael.

    Ela fechou os olhos, uma das mãos fechadas sob o peito dele e a outra no outro ombro, inúteis, tanto quanto a tentativa dela em conter aquele desejo que começava a queimá-la por dentro.

    Ela virou o rosto, livrando-se do dedo sobre seus lábios, sua bochecha ficando colada a bochecha dele, sentindo cada movimento que ele fazia enquanto bebia seu sangue.

    -... Por favor... - ela só queria se afastar dele antes que fosse tarde, queria que ele parasse antes que a vontade de fazer o mesmo que começava a despertar nela ficasse tão forte que ela não pudesse se controlar.

    - cala a boca... - ele descravou as presas da pele dela e se afastou, encarando-a, seus olhos estavam azuis novamente, frios sobre o rosto dela, sobre os olhos que ela abria lentamente.

    Ao contrário dele, os olhos dela estavam vermelhos, famintos e desejosos pelo sangue dele, mesmo sem estar com a menor sede.

    Raphael sorriu, seus lábios vermelhos pelo sangue de Sara, satisfeito em ver a vampira daquele modo. Ele deixou os dedos correrem pelos cabelos espalhados no colchão e então tornou a se inclinar sobre ela, ajeitando-se melhor sobre seu corpo.

    - Me morda - ele sussurrou no ouvido de Sara, a voz quente enquanto os dedos dele se enroscavam e puxavam levemente os cabelos dela - me morda e faça nosso laço ficar mais forte ainda - ele deslizou o nariz pela bochecha dela e então voltou a sugar o sangue dos dois furos sobre a pele da vampira.

    Ele ergueu a mão, obrigando-a a virar o rosto em direção a ele, fazendo-a enterrar o nariz nos cabelos platinados dele. O cheiro amadeirado encheu seus pulmões e a mão que estava no ombro dele deslizou para a nuca dele, para os cabelos e em seguida ela abaixou o rosto.

    Que diferença faria depois de tudo? Ela não sabia, ela sequer sabia o que estava sentindo, porque queria tanto o sangue frio e cheio de dor dele naquele momento.

    Ela moveu o rosto, afastando os cabelos dele, buscando um modo de mordê-lo e logo sua boca encontrou o pescoço dele, logo sua língua sentia o gosto frio da pele dele e suas presas afundavam.

    Raphael gemeu e mais uma vez ela arranhou a nuca dele, sua mão descendo pelas costas nuas dele, deixando cinco finas linhas vermelhas.
    Ele apertou mais o quadril contra a coxa dela e dessa vez um gemido escapou de Sara. Todas aquelas sensações, toda a dor que agora ela sentia vir com o sangue dele, como se tudo a rasgasse por dentro.

    Ela tomou um gole, seu corpo reagindo a cada toque de Raphael, parecendo queimar, a mão dele que estava em seus cabelos agora descia pela lateral do corpo dela, puxando a coxa dela, erguendo-a para a lateral do corpo dele. Não podia ser, mas ela mal podia pensar.

    Outro gemido dele e ela ofegou, seu peito subia e descia rapidamente, mesmo com o corpo dele sobre o dela, mesmo que ela tentasse impedir de sentir qualquer coisa e tudo o que ela pode fazer foi abraçar às costas dele com os dois braços, tão largas, suas mãos mal podiam se encontrar.

    Raphael afastou-se mais uma vez, lambendo e cicatrizando os furos no pescoço dela, se afastando o suficiente para que ela também entendesse que era hora de parar, mas ele não a deixou fechar o corte em seu pescoço, ele mesmo fez isso.

    Ele apoiou o rosto no ombro dela e ficou ali, um estranho silêncio imperando sobre os dois, quebrado apenas pela respiração de Sara enquanto ele permanecia imóvel sobre ela.

    Aos poucos a respiração de Sara foi se acalmando, em partes pelo fato dele estar imóvel, seu colo subindo e descendo lentamente, seus olhos fixos nas tábuas do teto.

    Ela não sabia o que fazer, ela não sabia o que dizer. Ela deixou seu olhar vagar pelas tábuas, começando a contá-las, como se aqueles fossem os segundos para Raphael se levantar e expulsá-la do quarto aos berros, jogá-la pela janela ou qualquer coisa assim.

    Longos minutos se passaram e o vampiro continuava imóvel sobre ela. Sara sentia seu corpo dormente, suas mãos desceram pelas costas dele até alcançarem a cintura dele e ela tentou se mover.

    -... Raphael... - a voz dela saiu rouca, baixa e como se a voz dela o despertasse de um transe ele se levantou, os cabelos brancos caindo sobre os olhos, cobrindo-os, impedindo-a de vê-los.

    Os braços dela escorregaram para o colchão e ele se sentou de costas para ela, levantando-se em seguida e indo para a janela.

    Raphael enfiou as mãos nos bolsos, tirando seu cigarro e seu isqueiro dali, acendendo e tragando longamente, soltando a fumaça pela janela aberta.
    Naquele momento Sara desejou ser como seu pai, poder ler mentes, apenas para descobrir o que Raphael estava pensando, mas talvez os pensamentos dele não fossem o que ela gostaria de ouvir.

    Raphael se virou e foi até o guarda roupas, pegando a primeira camiseta que vira e se vestindo com ela.

    - Eu já volto - ele disse, passando pela porta e apanhando a chave, trancando Sara dentro do quarto.

    Ela se sentou na cama, ainda atordoada, perguntando-se onde ele estaria indo e porque havia trancado ela, mas ela logo se distraiu das próprias perguntas quando se virou e viu o celular.

    Ela virou-se e engatinho sobre o colchão, estendendo a mão e apanhando o telefone. Estava descarregado, mas não tinha problema, finalmente estava com ela, finalmente ela não precisaria mais se humilhar para Raphael.

    Ela havia se virado novamente quando a porta se abriu, Raphael entrou, mas havia outra pessoa com ele, outro vampiro.

    -... Então ela é virgem? - Sara logo reconheceu a voz de Filipe Matrelli, um tom frio e cheio de maldade que a fez soltar o celular sobre o colchão e se levantar.

    - É - Raphael respondeu seus olhos fixos na garota sentada na cama - ela é - ele desviou o olhar para o cigarro nas pontas dos dedos, abaixando a cabeça.

    - Tudo bem - Filipe sacou algumas notas de dentro do bolso da calça e estendeu para Raphael - por ela e pelo quarto - ele disse enquanto Raphael apanhava as notas. Ele sequer contou quanto tinha, apenas enfiou nos bolsos e cruzou os braços enquanto se recostava na escrivaninha.

    - Olá Sara - Filipe se virou para a vampira, mas Sara ainda tinha seus olhos fixos em Raphael, ela sentia o sangue gelado de Raphael ainda mais frio dentro dela, sentia seu corpo duro, mal conseguia se mover depois do que ouvira - Ela parece decepcionada com você Grifais - Filipe comentou enquanto se aproximava da vampira.

    - Não tem porque, ela me conhece bem... - a voz dele saiu mortificada e ele desviou o olhar dela - eu não me importo com o que faça, terei prazer em assistir - ele colocou o cigarro na boca e ficou encarando os dois.

    Filipe voltou a olhar a vampira na cama, uma mestiça, um rank inferior ao seu. Seria engraçado fazê-la de brinquedinho, ouvi-la gritar e pedir que parasse e saber que ela não poderia reagir.

    Quando Filipe estava próximo Sara se levantou, os olhos vermelhos. Ela não deixaria, ela já havia entendido a intenção do vampiro nobre, mas ela ainda não conseguia entender porque...

    A frase de Raphael foi como uma flechada, o suficiente para que Sara se distraísse o suficiente e para que a dor se espalhasse dentro dela. Era tão claro, o que ela estava esperando? Estava esperando que ele a protegesse de alguma coisa?

    Ela se lançou contra Filipe, a raiva que sentia não era dele, embora a atitude dele fosse nojenta, mas o ódio de Raphael superava qualquer sentimento. Era ele quem ela queria destroçar, era ele quem fazia o ódio dela queimar.

    - Maldito! - ela gritou suas unhas acertando o rosto de Filipe e deixando quatro longos rasgos na pele de Filipe.

    Ele recuou, levando a mão ao rosto e rindo, olhando-a com desdém.

    - Isso não foi gentil, ainda mais com alguém que está acima de você. Você tinha razão Raphael, ela precisa aprender a se comportar! - os olhos de Filipe se acenderam e ele partiu para cima de Sara, sua mão fechada acertando o rosto dela, fazendo-a cair para trás. Se Raphael era mais forte do que ela o que dizer de um nobre?

    Sara cambaleou para trás, caindo sentada na cama e Filipe aproveitou o momento para atacá-la novamente. Ele lançou-se sobre ela e então acertou outro soco em seu rosto, pressionando o joelho sobre as costelas dela enquanto segurava o rosto dela com força, os olhos brilhando de raiva. Quem aquela mestiça achava que era para feri-lo? Seria uma honra abrir as pernas para ele, ela deveria fazer de bom grado!

    - Baiazinha imunda, saiba que quando mais relutar com mais vontade vai me deixar - ele disse, a mão deslizando para a boca dela, impedindo-a de gritar - se tentar me morder eu arrancarei sua mandíbula e além de uma vaca usada você vai ser aleijada! - se a agressividade de Raphael a assustava, a agressividade de Filipe a destruiu. Ele sim seria capaz de matá-la sem pestanejar.

    Encostado na escrivaninha Raphael continuava a assistir tudo com uma expressão impassível no rosto, tragando seu cigarro lentamente.
    Então era aquilo que Raphael queria? Vê-la destruída por completo em um show macabro?

    - Acho que agora você entendeu não? - Filipe tirou o joelho das costelas dela e então se inclinou sobre ela. Aquilo a destruiria por dentro, mas era claro que ela não daria o show que aqueles dois queriam. Se ele queria tomá-la então que fosse logo, ela não lutaria, não exporia seu desespero, ninguém a ajudaria afinal.

    Os olhos dela se apagaram, o castanho fincando ainda mais escuro que de costume, a expressão de seu rosto não trazia raiva ou ódio, estava tão vazia quanto seus olhos fixos no teto. Ela sequer via o garoto sobre ela.

    - Tão passiva, vamos ver se vai continuar assim quando eu começar - Filipe deitou-se sobre Sara, posicionando-se entre as pernas dela, suas mãos puxando as coxas dela para a lateral de seu corpo enquanto ele passava o nariz pela bochecha dela - você tem um cheiro quase enlouquecedor mestiça, pena seu sangue ser tão sujo - ele riu, mordendo-a ali.

    Sara já sentia o cheiro de seu sangue no ar antes dele mordê-la, afinal os socos de Filipe havia feito pequenos cortes em seu rosto e ela sequer se dera o trabalho de se curar.

    A mordida em seu rosto doeu, mas ela limitou-se a entreabrir os lábios feridos, nenhum som escapando deles, não daria o gosto de ouvi-la gemer de dor, de alimentar ainda mais a atitude doentia deles.

    Seu estômago embrulho e ela apertou os lábios quando sentiu as mãos de Filipe descendo por sua camisa do uniforme, abrindo os botões, as mãos dele apertando e arranhando o colo macio e quente da vampira.

    - Tão gostosinha como eu não notei isso antes, todas vocês mestiças deveriam ser assim, como prostitutas nossa. Afinal vocês são quentes como as humanas e resistentes como às vampiras. Com certeza vou me divertir mais com você do que com Cate - ele disse a voz rouca pelo desejo que começava a ficar explícito pelo volume em suas calças, volume que ele fazia questão de pressionar contra ela.

    Ele deixou a mão deslizar até a coxa dela, passando-a por debaixo da saia, arranhando-a até seus dedos encontrarem a roupa íntima dela.

    Os olhos de Raphael continuavam sobre a cena, agora estavam semicerrados enquanto ele apagava seu cigarro no cinzeiro que estava sobre a escrivaninha.

    "Reaja vampira estúpida!" - ele trincou os dentes enquanto assistia a cena. Agora Filipe havia se afastado e abria as calças. Ela não faria nada? Não, ela simplesmente continuava olhando para o tento como se nada estivesse acontecendo.

    - Agora vem a melhor parte - Filipe disse, acariciando o rosto de Sara - agora você vai gritar e sentir dor de verdade - ele disse enquanto voltava a se inclinar sobre ela.

    - Chega - a voz de Raphael saiu baixa e ele deu um passo para frente - Saia do meu quarto - Raphael encarava Filipe que o olhava confuso - Está surdo Matrelli? Deixe essa cadela ai e suma daqui! - ele praticamente rosnou as palavras e Filipe se afastou de Sara, um sorriso doentio dançando em seus lábios.

    - O que foi agora Grifftis? Ficou com dó da sua namoradinha? - ele comentou com desdém enquanto se virava para o outro vampiro.

    - Dane-se nobre imundo, só quero que saia do quarto, se quiser arrastá-la com você faça isso, mas sumam da minha frente! - ele continuava a encarar Matrelli.

    - Ora... - Filipe passou a língua pelos lábios - tudo bem, eu vou sair e sabe, não vou arrastá-la comigo, deixo o que sobrou dela para você.

    - Foda-se - Raphael fechou as mãos em punhos, mas abriu e pegou as notas que Filipe havia lhe dado e estendeu para ele - Seu dinheiro de volta, afinal é o justo.

    - Não quero, guarde para você, vai precisar para sustentar sua família de vampirinhos imundos com essa mestiça. É tão patético Grifftis, não consegue ver? Quando descobrir estará afundado numa vida medíocre. E eu que o considerei meu amigo e que achava que era um mestiço diferente

    - Filipe riu e então deu as costas para Raphael - filho de um amor sujo, o que esperar de vocês? - ele disse indo rumo à porta e assim que saiu Raphael o seguiu.

    - Maldito! - Raphael avançou sobre Filipe, empurrando-o e afundando a cabeça dele contra a parede do lado oposto. Ele não sabia porque o havia parado, mas aquilo não tinha importância, ele não falaria com ele daquele modo. Imundo, sujo, filho de humano! Aquelas frases que colocavam Raphael em seu lugar, ele nunca permitira aquilo.

    De dentro do quarto Sara apenas ouvia a briga que se distanciava cada vez mais pelo corredor. Ela sentou-se lentamente na cama, suas mãos movendo-se de modo mecânico e abotoando a camisa novamente.

    Se fosse mais forte talvez ela pudesse encarar Raphael e lhe dar os parabéns, afinal ele finalmente conseguira, ela estava destruída. Se fosse mais forte ela diria que ele tinha razão, era inútil. Mas ela não era forte e estava destruída, por dentro e por fora. Cada parte de seu corpo doía, capa parte de sua alma doía e se ele voltasse e a matasse não ia fazer nenhuma diferença.

    A dor de todos aqueles momentos anteriores eram quase nada comparada ao que ela sentia naquele momento. Ela apanhou o celular e se levantou seus passos arrastados alcançaram a porta e seus olhos viram as manchas de sangue na parede rachada quando ela abriu a porta. Sequer se esforçou para saber de quem era o sangue, ela só queria chegar a seu quarto.

    Era hora de por um ponto final naquilo, hora de se livrar de Raphael, não importava o que tivesse que fazer. O que havia acontecido havia sido o cúmulo de tudo afinal.

    Tentando ignorar a dor que sentia Sara alcançou seu quarto, ela teria tempo para chorar no avião, no táxi de volta para casa, em qualquer lugar longe o bastante dali.

    Uma mochila, seus cartões e dinheiro, seu celular descarregado, algumas roupas. Ela poderia mandar buscarem o resto de suas coisas depois, ela só queria sair dali o mais rápido possível.

    Pensou em tomar um banho, livrar-se da sujeira sobre sua pele, mas isso seria perder tempo, a maior parte da sujeira já estava por dentro dela, de todos aqueles sentimentos e sensações que corriam em sua veia.

    Ela limitou-se a trocar de roupa e pegar sua mochila com suas coisas. Apenas torcia para não encontrar nenhum dos dois no caminho, apenas torcia para que ao menos conseguisse sair daquela Academia. Aquele lugar havia arruinado quem ela era.

    Pular o muro e chamar um táxi foram coisas automáticas. Se Raphael queria destruí-la com certeza dessa vez ele acertara, pois até mesmo o olhar de Sara perdera o brilho.

    Dentro do táxi a jovem vampira abraçava à mochila, olhando a todo o momento pelo retrovisor do carro que se afastava lentamente, devagar demais para quem tinha urgência em se afastar.

    Ela sabia que Raphael seria plenamente capaz de surgir em frente ao carro em movimento e causar um acidente, ou então atacar ao motorista e colocar a culpa nela e mais uma vez ela estaria presa às chantagens dele, mas para a sorte dela a estrada que ficava para trás estava vazia.

    Os braços dela apertaram a mochila e ela se encolheu no banco, o taxista lançando o olhar curioso sobre ela, se perguntando o que poderia ter acontecido com a menina rica do famoso internato de Whistler, mas como bom motorista ele aprendeu a não se meter nos assuntos de seus passageiros. Ela estava com sua mochila, talvez tenha sido expulsa da escola e estivesse voltando para casa. Não era problema dele.

    Ela lhe pedira apenas para levá-la ao aeroporto e era isso que ele faria, afinal era uma longa viagem e a corrida seria bastante lucrativa. Aquilo sim era um problema dele.

    Sara sentia os olhos do motorista sobre ela através do retrovisor e aquilo a fez engolir a vontade de chorar, sabia que se chorasse ele entenderia que ela estava fugindo da Academia e poderia levá-la de volta. Se continuasse apenas com a expressão assustada e perdida talvez ele pensasse que ela estivesse em encrencas.

    A viagem duraria por cerca de três horas e aos poucos Sara foi relaxando. A perspectiva de estar longe de Raphael Grifftis, fora do alcance em qualquer coisa que ele pudesse lhe fazer ajudava bastante, muito embora a cada moto que passasse ao lado deles na estrada Sara quase desse um pulo no banco.

    Ela viajava com as janelas fechadas, isso impedia o cheiro das árvores de invadirem o carro, o aroma amadeirado da floresta em volta da estrada lhe lembrava o cheiro dele e aquilo era tudo o que ela não queria.

    Ela lançou um olhar ao motorista e ele pigarreou, desviando o olhar dela. Será que ele havia reparado nos pequenos machucados que ainda havia em seu rosto? Talvez não. Ela tirou os cabelos detrás das orelhas e os deixou cobrir mais seu rosto, forçando um sorriso ao motorista.

    - É uma longa viagem - ela comentou, talvez fosse melhor sanar logo a curiosidade dele com alguma mentira, assim ele não a ficaria encarando - Mas mamãe ficou doente e papai insistiu que eu voltasse para casa ainda hoje, para cuidar dela - sara apertou a mochila em seus braços - Estou muito preocupada.

    O motorista assentiu, retribuindo o sorriso da menina. Então era aquilo o que havia acontecido?

    - Sua mãe ficara bem - ele disse, assentindo com a cabeça e voltando a olhar para a estrada à frente. Ao lado, além das árvores, era possível ouvir o barulho da rebentação, baixo e reconfortante - Seu pai só deve estar exagerando na preocupação - ele completou, achando que a garota estava aflita por conta daquilo.

    Mais um sorriso forçado de Sara, tinha que fingir que estava aflita por um motivo, tinha que mentir usando os próprios pais, tudo para omitir a real razão de estar tão destruída.

    "Eu odeio você... faço questão de voltar para derrotá-lo um dia Grifftis..." - ela pensou, lembrando-se do olhar dele enquanto assistia tudo, segurando um rosnado.

    Mais lembranças, como se dar motivos para justificar sua aflição ao motorista houvesse aberto uma porta e todas elas entrassem de uma vez.
    O sorriso doentio que a assombrava, os olhos azuis que pareciam sugar-lhe a alma, pareciam descobrir cada recanto obscuro que havia em Sara, despertando sua natureza, seus instintos. O sangue que a cortava e feria tanto quanto as mãos dele. A presença esmagadora.

    Desde o primeiro dia na cafeteria até aquele momento, os encontros inevitáveis causados pelo destino, quando tudo o que ela queria era nunca mais vê-lo, como o encontro na pista de patinação, a primeira vez em que ela bebera sangue dele.

    Depois o encontro na sala de música e o ataque a Audrey, ele a transformara em cúmplice de assassinato naquela noite.

    À noite na boate, embora sua mente pouco se lembrasse do que havia acontecido ela tinha certeza de que não havia sido algo bom, o sangue humano que corria em suas veias deixava claro isso.

    "Eu odeio você..." - ela repetiu em sua mente, sentindo as lágrimas correrem pelas bochechas, um olhar de pena do motorista caindo sobre ela - "mil vezes..." - ela abaixou a cabeça, não queria ver aquele olhar, principalmente porque estava mentindo.

    "Sabe o que mais odeio em você? Você é hipócrita!" - ela lembrou-se do que ele havia dito, fechando os olhos apertados. Ela não era hipócrita, ela só...

    Ela lembrou-se então da sensação estranha que despertava quando ele se aproximava, quando ele a tocava, lembrou-se do peso do corpo dele sobre o dela, da mordida dele. Era tão dolorosa, mas ela havia desejado ela. Talvez ele tivesse razão.

    "Não!" - um soluço escapou e ela assustou-se com o próprio descontrole, as lágrimas rolavam por seu rosto e faziam a pele arder, fartas, escorrendo por seu queixo para o pescoço, para dentro da blusa.

    - Você está bem? - a voz do motorista era cheia de preocupação e ele chegou a diminuir a velocidade do carro, mas Sara pediu que continuasse.
    - M-me desculpe, só estou preocupada com mamãe... - ela respondeu, sentindo-se suja pela mentira, por despertar preocupação àquele

    desconhecido. Um humano, um humano desconhecido preocupado com ela, alguém que sequer imaginava o que ela era, do que era capaz. Por isso ela os amava - me desculpe... - ela falou novamente, secando o rosto nas mangas do casaco, sentindo-se nervosa, só quando tocou o rosto notou que as mãos tremiam. Raphael estava destruindo mais do que seus sentimentos, mas seu físico já começava a perder o controle.

    Ela forçou a olhar pela janela, obrigando-se a prestar atenção à estrada. A placa anunciava que estavam chegando a Vancouver e como as árvores começavam a diminuir ela abriu a janela. Agora mais carros passavam pelo táxi e Sara limitou-se a prestar atenção em suas placas e montar palavras com elas.

    Mais meia hora e o carro entrava na movimentada área de desembarque do aeroporto. Ela sacou a carteira enquanto o motorista manobrava e separou as notas. Havia sido uma viagem cara, mas ela não se importava, seu pai havia lhe dado um bom dinheiro, para que ela se divertisse.

    Uma onda de remorso a invadiu enquanto ela entregava as notas e agradecia ao motorista.

    - Obrigada e me desculpe pela longa viagem a esse horário - Sara disse enquanto desembarcava, secando o rosto mais uma vez e arrumando os cabelos desgrenhados por conta do vento da estrada.

    - Se cuide e melhoras para sua mãe - o motorista desejou e logo partiu, precisava voltar logo para a cidade, precisava voltar para sua família.
    Sozinha Sara olhou em volta, o aeroporto estava bem movimento, pessoas iam e vinham com malas, com suas famílias, sozinhas. Ela suspirou a respiração saindo entrecortada enquanto ela pensava no que fazer. Sentia-se cansada, suas mãos ainda tremiam e ela tratou de enfiá-las no bolso do moletom. Talvez fosse uma boa ideia tomar um café forte, comer algo, assim poderia se acalmar.

    Ela entrou no aeroporto, seus olhos correndo sobre as pessoas ali, as inúmeras lojas e lanchonetes, escolhendo a mais movimentada de todas e entrando. Queria-se se distrair ficar sozinha não seria uma boa escolha.

    Ela pediu um café forte, rosquinhas e um suco de laranja, descobrindo-se com fome quanto deu a primeira dentada no pão doce e bebeu um gole do café. A bebida quente foi bem recebida por seu estômago.

    "Talvez tenha sido porque ele bebeu meu sangue..." - ela pensou, colocando a mão sobre o pescoço, a pele pareceu arder quando ela tocou onde Raphael havia mordido e ela estremeceu. Mais lembranças, nenhuma bem vinda.

    Ela fechou os olhos tentando afastar a imagem de Raphael de sua mente, mas o momento em que ele a mordera naquela noite ia e vinha - "Não, por favor..." - ela envolveu o copo de isopor coma mão e suspirou. Era melhor terminar de comer e ir comprar a passagem. Só ligaria ao pai quando estivesse na Espanha, assim não teria como ele mandá-la de volta, ao menos não no mesmo dia.

    Um raio forte atingiu o chão, surpreendendo não somente Sara como aos demais passageiros, afinal o céu estava limpo quando ela entrou no aeroporto.

    As luzes piscaram, mas logo se estabilizaram, assim que o som do trovão se perdeu. Sara sentiu um arrepio quando olhou para a janela e viu a chuva que começava a cair do lado de fora, quando viu seu próprio reflexo.

    "Zumbi..." - ela ergueu a mão e tocou a ponta do nariz do próprio reflexo, sorrindo, levantando-se e então saindo da lanchonete após pagar seu lanche.

    Os guichês estavam praticamente vazios, a maioria das pessoas compravam a passagem por antecipação.

    - Boa noite, em que posso ajudá-la? - a atendente perguntou com um sorriso no rosto e Sara retribuiu o sorriso, sentindo o alívio por estar a um passo de sua liberdade.

    - Boa noite, eu queria uma passagem para Madri - sara remexia na bolsa em busca de sua carteira.

    - Seus documentos, por favor? - a funcionária pediu e Sara sacou o passaporte e entregou, voltando a carteira e pegando o cartão de crédito - Seus pais estão com você? Ou você tem autorização?

    A pergunta fez Sara parar, seu corpo congelando, toda a cor que havia voltado agora se esvaía de seu rosto.

    - O que disse? - ela perguntou, ainda não conseguia acreditar no que seus ouvidos estavam ouvindo, sua mente processando a informação, lembrando-se de quando havia partido da Espanha, a autorização para deixar os pais sem os pais.

    - A autorização de seus pais para deixar o país sozinha, ou você é emancipada? - a mulher perguntou e Sara abaixou a cabeça. Nenhum dos dois, ela não tinha nenhum dos dois.

    Um balde de água fria caiu sobre ela, seus ombros caindo junto, a mochila quase escorregando por seus dedos.

    - Não - Sara respondeu, erguendo o olhar para a funcionária. Seria possível que até mesmo longe Raphael a manteria como um ratinho na gaiola?

    - Sinto muito senhorita, mas como é menor de idade só pode viajar com autorização de seus pais. Volte quando estiver com todos os documentos - a mulher lhe devolveu o passaporte.

    Qualquer outro vampiro talvez tentasse usar sua lábia para convencer, talvez tentasse seduzir e até mesmo subornar, mas naquele momento Sara sentia como se estivesse desmoronando novamente, caindo e Raphael estivesse diante dela.

    - Tudo bem - Sara murmurou, sua voz saindo num fio baixo enquanto ela apanhava seus documentos e saia da fila do guichê.

    Para onde iria agora? O que iria fazer?

    Talvez devesse passar a noite no hotel, em algum lugar longe da Academia. Sabia que seria punida ao voltar, talvez até avisassem seus pais, mas ela não queria voltar para aquele lugar, ao menos por aquela noite. Ela precisava ficar longe de Raphael, mesmo que fosse e por apenas algumas horas.
    Seus pés se arrastavam pelo aeroporto, mais um balde e água fria caiu sobre ela. Que hotel a deixaria se hospedar? Menor de idade, menor de idade, ela não conseguiria hospedagem em lugar algum.

    Fora do aeroporto, sentada em um dos bancos da área externa Sara não conseguiu mais conter o peso de sua própria derrota, as lágrimas descendo mais uma vez pelo rosto enquanto ela engolia e sentia um gosto amargo descer por sua garganta.

    A chuva aumentou a água unindo-se ao vento, tornando-se uma tempestade ainda mais forte, passando a molhar a área onde os bancos estavam espantados todos que estavam ali. Todos menos ela. O que seria umas gotas de água para alguém que estava totalmente destruída?

    - Particularmente eu gosto da chuva - alguém a cobriu com um guarda-chuva, não que fizesse diferença já que suas roupas estava ensopadas.

    Ela ergueu o olhar para Raphael, não parecia surpresa ao vê-lo ali, na verdade tinha que admitir que fora derrotada, que era uma derrotada e aquele momento, ele ali perfeito e seco com seu cigarro no canto da boca e ela sentada encolhida e ensopada num banco, parecia ser perfeito, a imagem perfeita do que acontecia.

    Ele deu um passo para o lado, um sedan preto e luxuoso estava estacionado atrás dele, o pisca alerta ligado. Sara piscou os olhos algumas vezes, a água que escorria por seu rosto incomodando a visão.

    - Entre no carro Sara - a voz dele saiu baixa, letal e Sara sentiu o frio aumentar.

    Sem esperar por agressões ela simplesmente obedeceu a ordem. A porta do passageiro estava aberta e ela se jogou no banco, molhando-o por completo.

    Raphael deu a volta do carro e entrou, fechando o guarda chuva, largando-o no chão mesmo.

    Sem dizer nenhuma palavra ele deu partida, o corpo de Sara batendo contra o banco por conta do empuxo, ela sequer havia colocado o cinto e Raphael já saia do aeroporto.

    Sem dizer nenhuma palavra... Nenhuma palavra.

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